Casa do Autista de Maceió destaca direitos e respeito à neurodiversidade
Serviço administrado pelo Maceió Saúde orienta famílias sobre acesso à rede e oferece acompanhamento multiprofissional
O Dia do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, chama atenção para a importância de reconhecer as pessoas autistas para além de estereótipos, respeitando suas necessidades, potencialidades e direitos. Em Maceió, esse compromisso integra o trabalho da Casa do Autista, serviço especializado administrado pelo Maceió Saúde, que reúne atendimento multiprofissional, acolhimento às famílias e cuidado baseado em evidências.
Para a diretora-geral da Casa do Autista, a psicóloga Fabiana Lisboa, a data representa um momento de reflexão sobre avanços já alcançados e desafios que ainda permanecem. “Quando falamos em orgulho autista, não estamos dizendo que a luta deixou de existir. Pelo contrário. Estamos dizendo que as pessoas autistas têm orgulho de quem são, da sua identidade, e merecem viver com dignidade, respeito e acesso aos seus direitos. Autismo não tem cara, mas tem identidade, tem direito e precisa garantir os seus espaços”, disse.
Fabiana destaca que um dos principais desafios é enfrentar a desinformação sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente em relação às pessoas classificadas como nível 1 de suporte, que muitas vezes têm seus diagnósticos questionados por não apresentarem características consideradas “visíveis” por parte da sociedade.
“Em pleno 2026, ainda ouvimos frases como 'mas nem parece autista'. Isso revela o quanto ainda precisamos avançar na compreensão do espectro. O fato de uma pessoa não apresentar deficiência intelectual ou conseguir desempenhar determinadas atividades não significa que ela não enfrente dificuldades sensoriais, emocionais e sociais importantes. Sofrimento não pode ser medido pela aparência”, frisa, acrescentando que todos os níveis de suporte exigem atenção e políticas públicas efetivas.
Segundo a psicóloga, a ideia de que o autismo nível 1 seria “leve” também precisa ser revista. “Quando alguém diz que o autismo nível 1 é leve, a pergunta que precisamos fazer é: leve para quem? Cada pessoa enfrenta desafios diferentes. Enquanto algumas famílias lutam por inclusão na escola, outras enfrentam dificuldades para acessar transporte, atendimento especializado ou até mesmo ter seu diagnóstico reconhecido. Todas precisam ser vistas”, alerta.
Fabiana lembra ainda que o Brasil possui uma das legislações mais avançadas sobre inclusão, mas ressalta que a existência de leis, isoladamente, não garante a efetivação dos direitos. “Enquanto precisarmos criar novas leis para fazer valer direitos que já deveriam ser assegurados pela Constituição, ainda estaremos longe da inclusão plena. Precisamos construir uma sociedade que respeite as diferenças naturalmente, entendendo que vivemos em uma realidade neurodiversa”, disse.
Além da assistência especializada, a Casa do Autista orienta as famílias sobre o acesso aos serviços. A entrada ocorre por meio da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió, onde é aberto um protocolo, feita a triagem inicial e organizada a fila única de encaminhamento para os serviços disponíveis na rede.
A diretora-geral explica que a abertura do protocolo não significa encaminhamento automático para a Casa do Autista. “A Secretaria Municipal de Saúde organiza toda a fila e encaminha cada paciente para a primeira vaga disponível compatível com o perfil identificado na triagem. A Casa do Autista é um dos equipamentos dessa rede. Quando a vaga é destinada à nossa unidade, nossa equipe de Serviço Social entra em contato com a família para agendar a avaliação inicial”, esclarece.
Desde o início dos atendimentos, a Casa do Autista conta com uma equipe multiprofissional formada por neuropediatra, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, pedagogos, musicoterapeutas, nutricionistas, enfermeiros, assistentes sociais e educadores físicos. Atualmente, dezenas de crianças e adolescentes recebem acompanhamento multidisciplinar individualizado.
A instituição também mantém um trabalho permanente de acolhimento às famílias, com atendimento psicológico para pais e responsáveis, grupos terapêuticos, oficinas, encontros psicoeducativos e rodas de conversa.
“A participação da família é parte essencial do tratamento. Cuidar da criança ou do adolescente também significa cuidar de quem está ao seu lado diariamente. Por isso oferecemos espaços de escuta, orientação e fortalecimento emocional para pais e responsáveis, contribuindo para que toda a família esteja preparada para enfrentar desafios e celebrar cada conquista”, destaca Fabiana.
Responsável pela gestão da Casa do Autista, o Maceió Saúde aplica no serviço a experiência adquirida na administração do Hospital da Cidade, reconhecido pelo fortalecimento dos processos assistenciais, da segurança do paciente e da qualidade do atendimento. A diretora-presidente do Maceió Saúde, Camila Porciuncula, afirma que o objetivo é consolidar um modelo de gestão que una eficiência, acolhimento e assistência humanizada.
“A Casa do Autista nasceu para ser um espaço onde gestão qualificada e cuidado caminham juntos. Estamos aplicando a mesma cultura organizacional que fortaleceu o Hospital da Cidade, com processos bem estruturados, equipes capacitadas e foco permanente na qualidade da assistência. Mas, acima de tudo, estamos falando de pessoas, de famílias e de uma rede de cuidado construída com respeito e sensibilidade”, pontua a gestora, acrescentando que o compromisso vai além da oferta de terapias.
“Nosso papel é garantir que cada usuário seja acolhido de forma integral, com atendimento baseado em evidências, organização dos fluxos assistenciais e uma equipe preparada para oferecer cuidado de excelência. Queremos que as famílias encontrem não apenas um serviço de saúde, mas um ambiente onde se sintam compreendidas, orientadas e acolhidas”, complementou.