ECONOMIA

Picchetti diz que PIB surpreendeu com avanço do consumo e dos investimentos

Diretor do Banco Central afirmou que componentes mais sensíveis à política monetária tiveram aceleração no primeiro trimestre

Por Estadao Conteudo Publicado em 25/06/2026 às 12:04
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O diretor de Política Econômica e de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, Paulo Picchetti, afirmou nesta quinta-feira, 25, que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre surpreendeu tanto pela intensidade quanto pela composição.

Segundo ele, a expansão foi mais forte em componentes considerados mais cíclicos, como o consumo das famílias e os investimentos. A declaração foi dada durante entrevista coletiva sobre o Relatório de Política Monetária (RPM) do 2º trimestre, divulgado nesta manhã.

“A gente teve agora uma aceleração nos componentes mais cíclicos, mais sensíveis aí à política monetária, notadamente, consumo das famílias e investimento”, disse Picchetti.

Apesar da aceleração, o diretor afirmou que os investimentos seguem em nível baixo para os padrões históricos e ainda são insuficientes para sustentar o PIB. Ao mesmo tempo, os dados já disponíveis do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) indicam um segundo trimestre também positivo.

Diante desse cenário, a projeção do Banco Central para o PIB de 2026 passou de 1,6% para 2%.

Picchetti destacou que, pelo lado da demanda, a elevação da expectativa para o consumo das famílias já considera a redução do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês e outras medidas do governo que têm afetado a renda das famílias. O Banco Central incluiu os estímulos do governo como risco altista para o IPCA.

No mercado de trabalho, o diretor observou que a taxa de desemprego tem renovado mínimas históricas. De acordo com ele, a desaceleração na criação de empregos parece refletir uma restrição na oferta de trabalhadores, e não uma perda de força da demanda.

Picchetti também informou que a entrevista coletiva desta quinta-feira teria duração menor. Ele e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, viajam ainda nesta tarde para Basileia, na Suíça, onde participam da 96ª reunião anual geral e das reuniões bimestrais do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), conhecido como o banco central dos bancos centrais.

Mercado vê piora no cenário fiscal

Durante a entrevista, Paulo Picchetti afirmou que, apesar de algumas medidas anunciadas pelo governo, a percepção do mercado sobre o quadro fiscal tem piorado.

“A gente vê, aos olhos do mercado, de acordo com as últimas respostas do QPC, Questionário Pré-Copom, uma piora na percepção quanto ao cenário fiscal”, declarou.

O diretor ressaltou que, na prática, a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto continua em trajetória ascendente.

Cortes da Selic ainda não aparecem nas taxas de crédito

Picchetti afirmou ainda que os três cortes de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic realizados neste ano ainda não têm sido refletidos nas taxas de crédito.

“É bom lembrar que estamos olhando para números que ainda não captam isso, os cortes integralmente na ponta, porque esses dados são de abril, quando a gente, na verdade, ainda tinha só o efeito de um dos cortes e ainda lembrando que tem um tempo de transmissão das variações da taxa básica para as taxas de empréstimo na ponta”, disse o diretor do Banco Central.

Segundo ele, a dinâmica do mercado de crédito tem mostrado aumento simultâneo nas concessões e nos pagamentos, com intensidade maior nos pagamentos. O fluxo financeiro, que corresponde à diferença entre as duas variáveis, já vinha negativo e tem se tornado ainda mais negativo, afirmou Picchetti.

Choque de oferta aparece no IPCA cheio e nos núcleos

O diretor do Banco Central também afirmou que é possível observar com clareza os efeitos de um choque de oferta na inflação brasileira. Ainda assim, a alta de preços continua respondendo a um excesso de demanda.

“Vemos a caracterização bem clara de um choque de oferta, na medida em que os núcleos estão subindo bem menos do que o índice cheio”, disse Picchetti. “Porém, os próprios núcleos também estão em elevação, mostrando que tem um componente de demanda na dinâmica dos preços.”

Ele destacou que as surpresas recentes do IPCA refletem, em grande medida, uma “devolução” na dinâmica dos preços dos alimentos. O grupo ficou comportado em 2025, mas agora tem registrado alta, pressionando a inflação. Da mesma forma, os bens industriais avançam após um período de taxas comportadas.

Ao mesmo tempo, a inflação de serviços, mais relacionada à atividade econômica e, portanto, à política monetária, segue elevada e incompatível com a convergência do IPCA para a meta, segundo Picchetti. Para ele, o principal problema é que a alta dos preços desse grupo supera a produtividade do País.

Projeções indicam queda da inflação

Picchetti ressaltou que as projeções da autoridade monetária apontam uma queda acentuada da inflação na passagem do último trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028.

“Isso é bem importante à luz do que tentamos comunicar de diferentes formas e vamos reforçar aqui ao longo das nossas conversas hoje”, afirmou o diretor, ao se referir à comunicação da reunião de junho do Comitê de Política Monetária (Copom).

Ao comentar as projeções do Banco Central, ele voltou a mencionar a incerteza em torno das estimativas para a inflação, tema já tratado na comunicação do Copom, e destacou que a dispersão e a assimetria estão elevadas. Picchetti disse que pediu à equipe um modelo para começar a quantificar essas assimetrias e incorporá-las aos modelos de projeção da autoridade monetária.

O diretor também citou o aumento da estimativa para o IPCA no fim de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, de 3,3% no RPM anterior para 3,7% no relatório atual. Segundo ele, houve piora dos condicionantes da inflação.