Lula propõe que Mercosul abra negociação comercial com a China
Em cúpula no Paraguai, presidente também citou tratativas com Japão, Canadá, Índia e Vietnã
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta terça-feira (30), que o Mercosul inicie negociações com a China para um acordo de comércio. A declaração foi feita durante a Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul , realizada em Assunção, no Paraguai.
"O Mercosul está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nesta cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta", disse Lula.
Durante a fala, o presidente brasileiro também criticou o que chamou de “alinhamento automático” e “escolhas excludentes”.
"Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes", afirmou.
A cúpula do Mercosul nesta semana reuniu os chefes de Estados do Chile, Paraguai, Uruguai, Equador e Bolívia. O encontro marca o fim da presidência do Paraguai no bloco e o início da presidência do Uruguai nos próximos seis meses.
Antes de discursar, Lula pediu um minuto de silêncio em homenagem aos mortos pelos terremotos na Venezuela . Em seguida, defendeu a importância econômica e política dos 35 anos do Mercosul em um cenário internacional marcado, segundo ele, por protecionismo, guerras e aumento de ações unilaterais.
"A fragmentação da economia mundial impõe severos desafios ao comércio, aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável. Na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica", destacou o presidente brasileiro.
Lula afirmou que, entre 1991 e 2025, o comércio intrabloco passou de US$ 4,5 bilhões para US$ 50 bilhões. Segundo ele, as exportações cresceram 6% apenas em 2025, chegando a US$ 770 bilhões.
"O Mercosul permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada. O projeto de integração sul-americano deve estar acima de qualquer divergência ideológica. A melhor opção é fortalecer nossos mecanismos de diálogo e cooperação e ampliar nossa capacidade de atuação conjunta", disse.
A única ausência entre os chefes de Estado dos países-membros foi o presidente da Argentina, Javier Milei. Ele cancelou a última hora de viagem para Assunção, em meio à renúncia do chefe de gabinete da Casa Rosada, Manuel Adorni, envolvido em escândalos de corrupção por suposto enriquecimento ilícito.
Fundo do Mercosul
Entre os temas discutidos na cúpula atual está a criação do novo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), em substituição ao modelo atual, considerado insuficiente.
O Brasil anunciou que vai destinar US$ 100 milhões por ano ao novo Focem. O mecanismo foi criado em 2004 para reduzir as desigualdades entre os países do bloco sul-americano.
"Estamos prontos para passar ao Focem 2 e aumentar a contribuição brasileira com aporte de US$ 100 milhões anuais ao longo de uma década. Incorporar a Bolívia ao fundo será um passo adicional para reduzir as assimetrias entre blocos", declarou Lula.
O Brasil tem cobrado que a Argentina também ampliou sua contribuição para o Focem. O Paraguai defende que o novo fundo tenha aportes 50% superiores ao fundo antigo.
Desde sua criação, o Fundo financiou mais de mil quilômetros de rodovias, 680 milhas de ferrovias, 750 milhas de linhas de transmissão de energia e 100 milhas de redes de saneamento básico.
Segurança pública
Na área de segurança, o Brasil apresentou uma proposta de pacto regional de combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres. O país também destacou a implementação, em Buenos Aires, na Argentina, de um escritório regional da Interpol voltado ao enfrentamento do crime organizado.
“O Brasil vai exigir a presença de delegados dos 12 países da região na capital argentina por um ano, para ampliar a coordenação no combate ao tráfico internacional de drogas e ao crime organizado”, afirmou Lula.
Além do início das negociações com o Japão e do avanço nas tratativas comerciais com Canadá, Vietnã e Índia, o Mercosul avançou, nos últimos meses, no reconhecimento da nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) como documento válido para ingresso nos países do bloco e nos Estados associados.
O Mercosul
São Estados-membros do Mercosul a Argentina, a Bolívia, em processo de adesão, o Brasil, o Paraguai, o Uruguai e a Venezuela, que estão suspensos. São Estados associados o Chile, a Colômbia, o Equador, a Guiana, o Panamá, o Peru e o Suriname.
O Mercosul reúne 73% do território sul-americano, cerca de 65% da população da região e responde por aproximadamente 70% do Produto Interno Bruto (PIB) da América do Sul.