DESENVOLVIMENTO

Riquezas da África Ocidental enfrentam obstáculos políticos e sociais

Análise aponta que a região, apesar de rica em recursos minerais, sofre com crises que limitam seu crescimento.

Por Sputnik Brasil Publicado em 31/07/2026 às 19:15
Análise aponta obstáculos ao desenvolvimento da rica África Ocidental devido a crises políticas e sociais. © AP Photo

A África Ocidental, composta por 16 países e habitada por aproximadamente 477 milhões de pessoas, possui uma riqueza imensa em minérios como ouro, urânio e lítio. A região é a segunda maior indústria mineral, atrás apenas da região da Austrália, em relevância para oferta global de minerais estratégicos.

A Guiné, por exemplo, tem destaque na produção de bauxita com 25% das reservas mundiais, enquanto Gana e Mali são grandes produtoras de ouro, produzindo juntas cerca de 291 toneladas por ano.

Contudo, a região também é caracterizada por crises e desastres naturais, como surtos de doenças, choques climáticos, extremismo sectário e instabilidade política. Esses fatores acarretam em deslocamento populacional, escassez de recursos e tornam planos de cooperação regional difíceis.

Ouvida pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Luísa Barbosa Azevedo, pesquisadora de África Subsaariana no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), ressalta que a região passa por um momento crítico em seu projeto de integração.

Diante do aprofundamento do terrorismo nos últimos anos, Mali, Burkina Faso e Níger trocaram seus governos e, por isso, foram suspensos da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Em resposta, os países criaram sua própria organização como forma de combater os grupos jihadistas, a Aliança dos Estados do Sahel (AES).

Além da cooperação em defesa, o bloco passou a ampliar sua agenda para áreas como integração econômica, infraestrutura e política externa, como a redução da influência francesa, antiga colonizadora, na África Ocidental. Segundo Azevedo, agora com duas organizações supranacionais, torna-se mais difícil estimular o comércio regional e atrair investimentos.

Também ouvido pelo podcast, Alexsander Gebara, professor de história da África na Universidade Federal Fluminense (UFF), compactua com a ideia de que a suspensão realizada pela CEDEAO e a subsequente formação da AES evidenciam uma reconfiguração do cenário político e militar da região.

"Temos algumas organizações transnacionais, forças militares transnacionais, tentando colocar um pouco mais de segurança para aquela região geopolítica."

Ao programa, ele acrescenta que, apesar da diversidade geográfica, histórica e cultural da África Ocidental, a região compartilha atualmente duas prioridades centrais: ampliar sua autonomia e fortalecer a segurança regional.

Por isso, um dos principais debates envolve a redução da dependência em relação às antigas potências coloniais, novamente apontando para a França. "Hoje em dia, há uma busca de autonomia e segurança regional."

O historiador destaca que os países da antiga África Ocidental Francesa ainda discutem formas de conquistar maior independência monetária em relação ao Tesouro francês, que continua garantindo a conversibilidade do franco CFA.

"Isso tira muito a capacidade de autonomia monetária. Você não tem controle sobre o seu próprio câmbio, e isso dificulta políticas macroeconômicas."

Para Gebara, a agenda regional também passa por superar a posição historicamente ocupada na economia global como mera exportadora de matérias-primas. Segundo ele, há um esforço para agregar valor às riquezas minerais produzidas localmente e reduzir a relação de dependência econômica construída ao longo do período colonial e pós-colonial.

Ele avalia ainda que o rápido crescimento demográfico pode representar uma oportunidade para o desenvolvimento econômico, ampliando a força de trabalho disponível e criando potencial para expansão produtiva, embora também pressione governos a ampliar investimentos em infraestrutura, saúde, educação e geração de empregos.

A população da África Ocidental deve superar 800 milhões até 2050, segundo projeções da ONU. Apenas a Nigéria, país mais populoso do continente, concentra aproximadamente 240 milhões de habitantes, que pode ultrapassar 400 milhões nas próximas décadas.

Além disso, cerca de 60% da população da região tem menos de 25 anos, o que representa um potencial "bônus demográfico" caso os países consigam transformar essa ampla parcela jovem em mão de obra qualificada e inserida no mercado de trabalho. Entretanto, sem investimentos suficientes, esse crescimento também pode intensificar desafios como desemprego, pobreza e pressão sobre os serviços públicos.

"Há uma potencialidade de crescimento por causa do crescimento demográfico, mais do que um problema."