EDITORIAL

Saúde vale mais que pubicidade: Tribuna do Agreste apoia fim das bets no Brasil

Publicado em 16/10/2026 às 14:59
Bets: quando a aposta deixa de ser diversão e vira um problema de saúde

A perda de contratos publicitários não pode ter mais importância que a proteção da saúde dos brasileiros. A Tribuna do Agreste apoia a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de proibir as bets e considera acertada a prioridade dada ao enfrentamento dos danos associados às apostas. As dificuldades financeiras dos meios de comunicação merecem atenção, mas não podem servir de justificativa para manter um modelo de negócios à custa do sofrimento das famílias.

Editada em 25 de setembro, a Medida Provisória nº 1.394/2026 proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa, abrangendo apostas esportivas e jogos on-line. A restrição alcança operações físicas e virtuais, inclusive de empresas estrangeiras que ofereçam esses serviços a pessoas no Brasil. As demais modalidades lotéricas autorizadas por lei não estão abrangidas pela proibição.

Reportagem de Leonardo Coelho, publicada em 14 de outubro pela LatAm Journalism Review, do Centro Knight, mostra como a medida atingiu o financiamento do jornalismo esportivo. O relato, entretanto, também reúne profissionais que reconhecem a necessidade de colocar a saúde pública acima dos interesses comerciais.

É esse o ponto central do debate. Não se trata de ignorar as contas de veículos de comunicação, o trabalho de jornalistas ou a sobrevivência de produtores independentes. Trata-se de reconhecer que nenhuma dessas necessidades autoriza transformar a dependência das apostas em fonte de receita que deva ser preservada a qualquer custo.

A dimensão do problema aparece no dossiê “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, elaborado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, em parceria com a Frente Parlamentar da Saúde Mental e a Umane. O levantamento estima em R$ 38,8 bilhões anuais os custos sociais associados ao jogo problemático, dos quais aproximadamente R$ 30,6 bilhões correspondem a danos relacionados à saúde.

Esses valores não representam apenas despesas do SUS. A estimativa inclui custos diretos e indiretos, como tratamentos, perda de qualidade de vida e mortes associadas ao problema. Também exige rigor na interpretação: o estudo utiliza parâmetros internacionais adaptados ao Brasil e ressalva que associação não significa comprovação de causalidade direta em todos os casos. Ainda assim, oferece uma referência importante sobre a dimensão humana e econômica dos danos.

Outro indicador foi apresentado pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, no anúncio das medidas: entre 2018 e 2025, os atendimentos no SUS relacionados ao jogo patológico cresceram cerca de 140%, segundo informação registrada pela Agência Senado. O dado evidencia uma demanda crescente por cuidado que não pode ser reduzida a um problema privado de quem aposta.

A Organização Mundial da Saúde também alerta que os danos das apostas ultrapassam as perdas financeiras. Podem envolver adoecimento mental, conflitos familiares, violência e comprometimento de recursos necessários à alimentação, à moradia, à educação e à própria assistência à saúde. Entre as medidas de prevenção, a organização recomenda encerrar a publicidade, a promoção e os patrocínios de apostas em atividades esportivas e culturais.

Portanto, o dinheiro retirado das apostas não deve ser enxergado apenas como receita que deixa de chegar a um patrocinado. É preciso considerar também o orçamento familiar que necessita de proteção e o sofrimento que as políticas públicas devem prevenir. A discussão não pode começar e terminar nos balanços das empresas.

Na reportagem da LatAm Journalism Review, Juca Kfouri relata que inicialmente considerou necessário um período de adaptação. Reavaliou sua posição depois de conversar com um médico sobre a urgência do problema. “Não há período de carência quando se trata de saúde pública”, afirmou o jornalista.

A observação traduz a diferença entre duas prioridades. Empresas precisam reorganizar receitas; pessoas em sofrimento precisam de proteção e atendimento. Ambas as questões merecem respostas, mas não possuem a mesma urgência nem podem ser colocadas em uma equivalência que apague o custo humano da dependência.

Gustavo Poli, ex-diretor de Programas e Conteúdo Digital da TV Globo, explicou à LJR que as bets passaram a ocupar diferentes espaços da cadeia esportiva, dos clubes aos veículos e criadores de conteúdo. Na avaliação dele, a retirada desses recursos pressionará os orçamentos e exigirá diversificação das fontes de financiamento.

Essa transição deve ser enfrentada com responsabilidade, sem desprezar empregos ou minimizar as dificuldades de quem produz informação. Mas a solução não pode ser exigir que a sociedade continue convivendo com danos graves apenas porque o setor se tornou um anunciante importante. Cabe à comunicação buscar alternativas comerciais compatíveis com sua responsabilidade pública.

A proibição, por sua vez, não dispensa outras providências. A Tribuna do Agreste defende fiscalização efetiva, combate às plataformas clandestinas, atendimento às pessoas com transtorno do jogo e apoio às famílias. Também considera indispensável acompanhar os resultados da política, corrigir falhas e cobrar transparência. Apoiar uma decisão não significa dispensá-la de avaliação.

A medida permanece em tramitação no Congresso Nacional e enfrenta questionamentos judiciais. Em 9 de outubro, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região suspendeu uma liminar que permitia a continuidade das operações de uma empresa, preservando, naquele caso, os efeitos da proibição. O debate institucional deve ocorrer com respeito às garantias legais, sem deixar a proteção da população em segundo plano.

O posicionamento deste jornal é claro: Lula acertou ao colocar a saúde pública no centro dessa decisão. A imprensa tem o direito de buscar sustentabilidade, mas tem também o dever de reconhecer quando o interesse coletivo exige mudanças. Nenhum contrato de publicidade vale mais que a vida, a saúde e a dignidade dos brasileiros.