POLÍTICA

Milei critica governo espanhol durante visita a Madri

Presidente argentino ataca Pedro Sánchez e se reúne com líderes de direita na Espanha.

Por Sputnik Brasil Publicado em 22/10/2026 às 01:59
Milei e suas duras críticas a Pedro Sánchez durante visita a Madri. © AP Photo / Heuler Andrey

O presidente argentino, Javier Milei, encerrou sua viagem a Madri após insultar o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, e reunir-se a portas fechadas com Isabel Díaz Ayuso, em plena campanha para as eleições de 29 de novembro.

Em discurso a empresários reunidos no Nueva Economía Fórum, Milei classificou Sánchez como um "ditador inapresentável" e convocou os espanhóis a tirar os socialistas do poder.

A visita, a sétima do presidente argentino à Espanha desde que assumiu o cargo, em dezembro de 2023, ocorreu duas semanas depois de Sánchez dissolver as Cortes Gerais e antecipar as eleições, após a derrota parlamentar de seus decretos sobre habitação. Assim como nas viagens anteriores, não houve encontros com o Governo espanhol, e a Casa Real descartou uma reunião com o rei Felipe VI.

A passagem por Madri ocorreu uma semana após uma viagem a Washington, quando Milei apoiou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições legislativas de 3 de novembro e declarou ao candidato brasileiro Flávio Bolsonaro, que enfrentará, em 25 de outubro, o atual chefe de Estado, Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno das eleições presidenciais.

O Ministério das Relações Exteriores emitiu um comunicado oficial em que chamou a conduta do presidente argentino de "indigna", condenou seus insultos e o apelo à violência e rejeitou o que considerou uma ingerência nos assuntos internos do país.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) instalou em sua sede principal uma faixa irônica de boas-vindas, assinada por "os esquerdistas e as esquerdistas", que apresenta a Espanha como o país que mais cresce na Europa. Paralelamente, houve protestos de estudantes na Universidade Rey Juan Carlos, onde Milei discursou, e do sindicato UGT.

O pano de fundo é uma relação bilateral deteriorada desde maio de 2024, quando Milei chamou a esposa de Sánchez de corrupta durante um evento do partido Vox.

Desde então, a Embaixada da Espanha em Buenos Aires está sem embaixador titular, embora o país europeu seja o segundo maior investidor estrangeiro na Argentina, com cerca de 15% do total.

Doutor em Ciência Política, Alejandro Corbacho afirmou à Sputnik que a viagem não tinha nenhuma finalidade oficial além da reunião com Díaz Ayuso, "de modo que representa muito mais uma marca pessoal do que uma atuação em representação do Estado".

O cientista político acrescentou que a viagem teve um propósito eleitoral: "há um claro apoio político aos setores de direita da Espanha".

Para o especialista, é "impossível pensar nisso sem fazer referência à 'batalha cultural' defendida por Milei. A Espanha é um cenário importante, porque é governada por um presidente absolutamente distante da narrativa conservadora".

Direita espanhola reticente

De acordo com a assessoria de Milei, um dos pontos altos da visita foi a reunião com a presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, do Partido Popular (PP), de quase duas horas.

A chegada de migrantes à cidade Ceuta, as condições da classe média e a legislação que permitiu que descendentes de exilados espanhóis obtivessem a nacionalidade (Lei dos Netos) estiveram entre os temas da conversa.

Ayuso pediu ao chefe de Estado sul-americano que participasse da Cúpula Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo, que será realizada em Madri nos dias 4 e 5 de novembro, e o governo Sánchez também não descartou sua presença. Até o momento, a Casa Rosada não confirmou se Milei viajará novamente à capital espanhola, a pouco mais de três semanas das eleições.

A visita ocorre em um cenário eleitoral favorável aos aliados de Milei, em que pesquisa de opinião colocam o PP em primeiro lugar, o PSOE em segundo e o Vox em terceiro, com as duas forças de direita somando entre 189 e 210 cadeiras, acima das 176 necessárias para alcançar a maioria absoluta.

A direita espanhola, no entanto, administrou com cautela a presença do argentino. O líder do partido Vox, Santiago Abascal, principal oponente de Sánchez, manteve a agenda de campanha no norte do país europeu e conversou com Milei apenas por videochamada. Já o PP evitou se pronunciar sobre a viagem, e seu líder, Alberto Núñez Feijóo, também não se reuniu com o mandatário.

Em entrevista à Sputnik, o analista internacional Héctor Bernardo comentou a estratégia de Milei, que tem sido sua marca desde que assumiu o governo argentino, tentando se aproximar de figuras mais à direita, como foi o caso da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Segundo ele, a figura de Milei, no entanto, tem gerado cautela por parte desses líderes europeus.

"Todos esses elementos que antes pareciam transformá-lo em um fator capaz de acrescentar alguns votos a esses [líderes] de direita agora estão sendo avaliados para verificar se, de fato, uma foto com Milei lhes rende votos ou acaba tirando votos deles. Por isso, não surpreende que ele tenha agendado tão poucas reuniões oficiais", ressaltou.

A aposta global

Segundo Bernardo, a retórica do presidente argentino vai muito além das fronteiras da Espanha. "Milei se transformou em uma bandeira dessa onda de líderes mais conservadores que começaram a surgir em todo o mundo nos últimos anos, e é nesse contexto que se insere sua visita à Espanha", afirmou.

O especialista acrescentou que "muitas vezes, ele é levado quase como uma referência para os processos eleitorais, como aconteceu no Brasil, na tentativa de aproveitar sua popularidade".

Corbacho considerou que "a viagem de Milei é relevante, porque ele continua apostando na construção de um polo mundial de líderes com afinidades ideológicas:

"Está claro que esses movimentos seguem uma mesma lógica: continuar se apresentando como um líder internacional dessa onda de figuras de direita em nível mundial. Tornou-se um denominador comum que diferentes presidentes, como Trump e Milei, viajem para apoiar os candidatos de sua preferência. Eles veem isso como um investimento: se os líderes que ele apoiou vencerem as eleições, poderão comemorar o resultado como uma vitória própria", ressaltou.