Vladimir Barros
É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.A homologação que não vem (uma crônica longa sobre uma espera que já virou ferida)
Há cidades que carregam esperas. Algumas esperam chuva, outras esperam estrada, outras esperam prefeito que cumpra o que diz. Palmeira dos Índios — essa cidade que existe no mapa, mas existe ainda mais na alma de quem conta suas histórias — espera uma assinatura. Só isso: uma assinatura. E, no entanto, é essa ausência de tinta no papel que tem sido suficiente para desatar medos, alimentar ódios silenciosos e fazer tremer o chão de famílias inteiras.
A homologação das terras indígenas, que deveria ser um ato jurídico claro, virou uma pedra no meio do caminho, um rosário interminável de protelações. O processo se arrasta como mula cansada, enquanto autoridades, uma a uma, começam a manifestar preocupação com o rumo da tensão. Ministério Público, Defensoria, juízes que não dormem tranquilos há semanas — todos sabem que basta uma faísca para incendiar uma história que já nasceu acesa.
E se uma tragédia acontecer — e Deus nos livre dessa palavra pronunciada em voz alta — não haverá dúvida sobre o nome que assinará a responsabilidade política: Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, que carrega hoje sobre a mesa o peso da decisão e que, por razões que só ele conhece, insiste em adiar o inevitável.
Enquanto isso, a vida segue — ou tenta seguir — no compasso de quem não sabe o dia de amanhã.
Nas grotas, nos sítios, nas beiras de cerca, pequenos agricultores contam suas horas como quem conta moedas. Há minifúndios que não chegam a uma tarefa de terra, mas que carregam dentro de si cinquenta, sessenta, até cem anos de memória familiar. Casas que foram levantadas a mutirão, galpões onde o milho secou por décadas, chão onde se enterrou o umbigo dos filhos.
E é essa gente que hoje dorme com medo.
Medo porque, se a homologação vier - e ela virá, como afirmou o coordenador regional da FUNAI em entrevista à Tribuna do Sertão -, a próxima etapa será a desintrusão. Palavra fria. Significa a retirada das famílias. Significa sair — e sem saber para onde.
O Estado brasileiro, o governo de Alagoas, o Incra, o Iteral… nenhum deles ofereceu até agora uma solução concreta, palpável, humana. Não há plano de reassentamento, não há destinação de terras, não há resposta. Só há o silêncio do poder público, que pesa mais que qualquer decreto.
Mas, como se não bastasse o conflito já doloroso, ainda há os oportunistas. Há sempre.
Numa audiência pública, um ex-deputado — desses que o povo, com sabedoria, aposenta sem precisar de INSS — resolveu subir ao palanque para ‘ensinar’ história. Tucano de plumagem desbotada, passou vinte anos na Assembleia, carregando a bandeira de Fernando Henrique Cardoso, o presidente que de fato iniciou as demarcações no país. Vinte anos com a caneta na mão, vinte anos com força política, vinte anos para resolver o problema… e nada. Absolutamente nada.
Mas bastou que suas próprias terras caíssem dentro da área demarcada para que o nobre aposentado virasse defensor ferrenho dos pequenos produtores. Ironia pouca é bobagem.
E, ontem, sob o sol quente da capital, ele tentou reescrever a história, acusando escritores e historiadores locais de serem culpados pela demarcação indígena. Ele, que mal assina o próprio nome, resolveu ensinar história a quem dedicou a vida aos livros. Vomitou impropérios, incitou resistência contra ordem judicial, posou de herói de ocasião.
Estranho… porque, quando a FUNAI esteve em suas terras para fazer o levantamento, não houve resistência, não houve discurso inflamado, não houve palanque. Assinou o termo caladinho. Feito um cordeiro.
E é preciso dizer: esta crônica não toma lado. Não toma partido contra indígena, nem a favor de proprietário. Não escolhe bandeira, porque bandeira demais só coloca fogo onde já tem brasa.
O que se busca aqui é conciliação — palavra bonita, difícil, mas ainda possível.
O que está feito, está feito. O processo é irreversível, disse Cícero Albuquerque, coordenador da FUNAI, com todas as letras. Remar contra a maré agora é só cansaço. É gastar energia no que não voltará atrás.
Resta lutar pelo que vem depois: indenização justa.
Justa pelo tempo vivido.
Justa pelo chão cultivado.
Justa pela vida que se ergueu naquelas terras.
A União tem dinheiro — e tem.
Tem obrigação — e tem.
E tem precedentes: na década de 90, meu pai, Ivan Barros, enfrentou acusações injustas de ambos os lados, mas trabalhou para que proprietários fossem indenizados e pudessem reconstruir suas vidas. A FUNAI, através do então Ministro da Justiça Renan Calheiros pagou. As famílias seguiram. Os indígenas ocuparam. E a cidade continuou existindo.
Hoje, trinta anos depois, a mesma história volta, mas embaralhada por paixões políticas mal resolvidas. No passado, acusaram Ivan Barros de defender apenas os proprietários. Agora, um ex-deputado aposentado o acusa de escrever a história a favor dos indígenas. Uma contradição que caberia num livro de tragicomédia. O tempo dá voltas — mas não dá vergonha a alguns.
E, no centro disso tudo, há uma cidade cansada, que só quer paz.
Brancos, indígenas, agricultores, comerciantes, professores, estudantes — gente que vive, trabalha e ama Palmeira dos Índios. Gente que sabe que não vive numa guerra, mas está sendo empurrada para dentro de uma.
E é por isso que esta crônica é também um pedido.
Um pedido para que as autoridades ajam, antes que a história vire manchete trágica.
Um pedido para que os órgãos resolvam o reassentamento antes da retirada.
Um pedido para que a indenização seja digna, humana, correta.
E, sobretudo, um pedido para que não se jogue gasolina no que já está incendiado.
Porque, no final das contas, a terra é importante — mas a vida é mais.
A memória é valiosa — mas a paz é indispensável.
E Palmeira dos Índios não é território de guerra.
É território de gente.
De gente que merece continuar vivendo sem medo.
De gente que merece justiça, não vingança.
De gente que merece humanidade, não palanque.
Se a homologação é irreversível — e é —, que seja então seguida de dignidade.
Porque dignidade, sim, é uma decisão que não depende de decreto.
Depende de coragem.
E coragem é o que está faltando no Planalto.
Aqui não. Aqui sobra.