Vladimir Barros
É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.Alagoas, a terra dos 100 milhões (e a vergonha que se repete)
Há números que não são apenas números. Eles viram símbolos. Viram marcas. Viram cicatrizes. Em Alagoas, 2025 termina com um número martelando a consciência pública como um sino rachado: 100 milhões de reais. E o mais grave não é que seja um só escândalo. São vários. Todos com o mesmo valor. Todos cercados por silêncio, cinismo e impunidade.
Cem milhões sem prestação de contas em Palmeira dos Índios.
Cem milhões desviados do Fundo de Previdência da Prefeitura de Maceió.
Cem milhões da saúde pública de Alagoas, evaporados em meio à dor de quem espera atendimento, exame, cirurgia, remédio.
A pergunta já não é mais técnica. É moral.
Para onde Alagoas vai com tanta corrupção e tanta impunidade?
O cidadão comum trabalha, paga imposto, enfrenta fila, falta água, falta luz, falta médico - e, em troca, assiste ao espetáculo grotesco da política local transformando cifras milionárias em nada. Ou pior: em patrimônio pessoal, poder, influência e sorrisos cínicos.
O mais humilhante é perceber que a vergonha deixou de ser exceção. Virou rotina. Virou paisagem. Virou algo que se comenta no café, no balcão da padaria, na feira, com um suspiro resignado: “é sempre assim”.
E agora, como se não bastasse o escândalo em si, começa a fase mais hipócrita da política alagoana: a guerra dos corruptos contra corruptos. O sujo apontando o dedo para o mal lavado. Os que se dizem contra o governo brandindo o desvio da saúde como bandeira moral. Os que se dizem contra a oposição rebatendo com o rombo do Fundo de Previdência de Maceió. Um tiroteio retórico onde ninguém é inocente e todos fingem indignação.
É uma disputa de narrativas, não de princípios.
E no meio desse fogo cruzado, quase esquecido, está o caso mais simbólico de todos: os 100 milhões sem prestação de contas de Palmeira dos Índios. Um dinheiro que simplesmente desapareceu do debate oficial, como se nunca tivesse existido. Nenhuma explicação convincente. Nenhuma responsabilização clara. Apenas um fanfarrão, sorridente, desfilando pelas redes sociais, tecendo mentiras, criando versões, escondendo a verdade do povo com a tranquilidade de quem aposta na memória curta da população.
Ele sorri porque sabe.
Sabe que a impunidade virou método.
Sabe que o barulho passa.
Sabe que outro escândalo sempre chega para abafar o anterior.
Enquanto isso, servidores temem pelo futuro, aposentados desconfiam do presente, doentes esperam atendimento, cidades definham. Alagoas parece presa a um ciclo perverso onde o dinheiro público não constrói, não cura, não protege - apenas some.
E o pior não é o roubo em si. É a naturalização do roubo. É a tentativa constante de convencer o povo de que “todos fazem”, de que “sempre foi assim”, de que “não adianta reclamar”. Esse discurso é o maior aliado da corrupção, porque transforma indignação em cansaço.
Mas há um limite.
A partir de agora, a divisão política vai se acirrar, sim. Não por projeto de futuro, mas por conveniência. Cada lado usando o escândalo do outro como escudo, não como motivo de mudança. Poucos querendo limpar a casa. Muitos querendo apenas trocar o dono da chave.
Esta crônica não absolve ninguém. Não escolhe lado. Escolhe a verdade. Porque, no fim das contas, não importa se o desvio foi na saúde, na previdência ou numa concessão obscura. O dinheiro é o mesmo. É do povo.
E o povo já passou vergonha demais.
Alagoas não merece ser lembrada como a terra dos 100 milhões desaparecidos. Merece ser lembrada como a terra que, um dia, cansou de ser feita de tola.
A pergunta está lançada.
O tempo, como sempre, dará a resposta.