Michelle Bolsonaro é constrangida durante ato político bolsonarista
Episódio expõe contradições do discurso moralista e levanta debate sobre violência contra a mulher até mesmo em ambientes que se dizem defensores da “família”
Um episódio grave e constrangedor marcou um ato político promovido por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi vítima de assédio em pleno palanque, diante de militantes, lideranças e câmeras.
Imagens que circulam nas redes sociais mostram um homem — apontado como correligionário e participante ativo do evento — aproximando-se de Michelle de forma inadequada. Ele passa a mão em sua cintura e, em seguida, toca a região dos glúteos, gesto que provoca visível desconforto e constrangimento na ex-primeira-dama.
O gesto, além de invasivo, configura uma clara violação de limites pessoais e pode se enquadrar como assédio sexual.
O constrangimento é perceptível. Michelle tenta manter a postura pública, mas o incômodo é evidente. O episódio não apenas expõe uma situação de desrespeito à mulher, como também escancara a hipocrisia de setores que, historicamente, se apresentam como defensores da moral, dos “bons costumes” e da família.
Um acinte público
Trata-se de um verdadeiro acinte. O assédio ocorreu em um ambiente político, sob holofotes, diante de apoiadores que, em tese, deveriam zelar pela integridade e segurança da própria liderança que dizem apoiar.
O gesto ultrapassa o campo do comportamento inadequado e entra no terreno da violência simbólica e física contra a mulher.
Independentemente de alinhamentos ideológicos, nenhuma mulher — seja ela figura pública, liderança política ou cidadã anônima — pode ser submetida a esse tipo de situação. O corpo feminino não é território livre, muito menos palco para abusos travestidos de “euforia política” ou “excesso de empolgação”.
Silêncio e contradição
Até o momento, não houve manifestação pública contundente de lideranças bolsonaristas condenando o ato ou anunciando providências. O silêncio, neste caso, também fala. Revela a dificuldade de enfrentar práticas que contradizem o discurso conservador frequentemente vocalizado por esse campo político.
É impossível ignorar a contradição: movimentos que se apresentam como defensores da moralidade, da família e da proteção às mulheres assistem, sem reação imediata, a um episódio de assédio protagonizado por alguém do próprio meio.
Mais do que um episódio isolado
O caso reforça um problema estrutural da sociedade brasileira: o assédio ainda é naturalizado, relativizado ou minimizado, mesmo quando ocorre em locais públicos e diante de registros visuais claros. Quando envolve figuras públicas, o impacto é ainda maior, pois transmite uma mensagem perigosa de tolerância ao abuso.
A situação vivida por Michelle Bolsonaro deveria servir de alerta e reflexão. O combate ao assédio não pode ser seletivo, ideológico ou conveniente. Ou se condena em qualquer circunstância, ou se legitima, pelo silêncio, a perpetuação desse tipo de violência.
O respeito às mulheres não é bandeira partidária — é obrigação civilizatória.