ELEIÇÕES 2026

Cabo Bebeto revela conversa com Bolsonaro e diz que Lira ajudou a barrar impeachment; Leonardo Dias reforça ligação com Hospital que custou R$266 milhões

Na convenção de PP e União Brasil, Leonardo Dias também exaltou atuação de Lira junto ao bolsonarismo e atribuiu ao deputado participação na aquisição do Hospital da Cidade; Alfredo Gaspar, presidente do PL em Alagoas e parceiro anunciado de Lira para o Senado, não participou do evento

Publicado em 02/08/2026 às 21:11
Cabo Bebeto: "Presidente (Bolsonaro) me disse que Arthur segurou impeachment" Reprodução

A convenção partidária que homologou a candidatura de Arthur Lira ao Senado neste domingo (2) acabou revelando, pela boca de aliados bolsonaristas, fatos da relação política do ex-presidente da Câmara com Jair Bolsonaro que o próprio candidato preferiu não mencionar quando falou ao público e à imprensa.

O deputado estadual Cabo Bebeto afirmou, em discurso, que ouviu do próprio Bolsonaro que Arthur Lira foi importante durante seu governo e, entre outras ações, teria ajudado a “segurar” pedidos de impeachment contra o então presidente.

A declaração ganha dimensão política porque não partiu de um adversário de Lira, mas de um aliado do campo bolsonarista presente à convenção.

Segundo Bebeto, em encontro com Jair Bolsonaro, o próprio ex-presidente teria relatado a atuação de Lira para impedir que pedidos de afastamento avançassem na Câmara dos Deputados.

O histórico público daquele período dá contexto à declaração. Enquanto presidia a Câmara, Lira tinha a prerrogativa de decidir sobre o andamento dos pedidos e chegou a afirmar, em 2021, que não havia justificativa para abertura de impeachment e que os pedidos por ele analisados eram improcedentes. Em junho daquele ano, um “superpedido” reuniu acusações contra Bolsonaro, em um momento no qual já haviam sido protocoladas 122 peças defendendo seu afastamento.

Hoje, Bolsonaro cumpre pena após ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado e outros crimes relacionados à trama para impedir a transição de poder após as eleições de 2022.

O “meio” de Lira e as lembranças dos bolsonaristas

A manifestação de Cabo Bebeto contrastou diretamente com o tom adotado por Arthur Lira momentos antes.

Ao falar com a imprensa, o candidato ao Senado procurou se afastar da polarização entre bolsonaristas e petistas. Lembrou que presidiu a Câmara durante o governo Bolsonaro e que votou no então presidente em 2022, mas destacou sua capacidade de manter diálogo com diferentes campos políticos.

“Eu acho que o caminho do meio sempre é o caminho que produz mais para a população. Você tem que se desviar dos extremos”, disse Lira. Ele acrescentou que dialogava “com um de manhã” e “com outro à tarde” e afirmou não ser homem de “ficar em cima do muro”.

O que Lira não mencionou em seu próprio discurso acabou sendo lembrado no palco pelos bolsonaristas.

Além de Cabo Bebeto, o vereador por Maceió Leonardo Dias reforçou a atuação de Arthur Lira em favor do governo Bolsonaro, apresentando o candidato ao Senado como alguém que teve papel importante naquele período.

Assim, enquanto Lira tentava construir perante o eleitor uma imagem de equilíbrio, diálogo e distanciamento dos extremos, aliados localizados justamente em um dos polos da disputa política nacional fizeram questão de reivindicar sua contribuição ao bolsonarismo.

Alfredo Gaspar, principal nome do PL, não apareceu

Outro detalhe político chamou atenção na convenção. Apesar dos discursos de Cabo Bebeto e Leonardo Dias, nenhum dos dois representa hoje a principal liderança institucional do Partido Liberal em Alagoas.

Esse papel pertence ao deputado federal Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, presidente estadual do PL e também candidato ao Senado. Gaspar não participou da convenção de Arthur Lira e, até o encerramento do evento, não houve mensagem sua exibida publicamente no palco.

A ausência ganha relevância diante da movimentação política dos últimos meses.

Arthur Lira e Alfredo Gaspar chegaram a anunciar uma parceria para disputar conjuntamente as duas vagas de Alagoas no Senado. Em junho, representantes do PL e da União Progressista reafirmaram um entendimento que previa uma chapa senatorial com Lira e Gaspar.

Os dois também estiveram envolvidos nas negociações para tentar construir uma composição com JHC, ex-prefeito de Maceió e candidato do PSDB ao Governo de Alagoas.

As conversas avançaram em diferentes momentos, mas enfrentaram sucessivos impasses. Reportagens publicadas durante as articulações mostraram que o desenho discutido previa JHC para o Governo e Lira e Gaspar para o Senado, porém o acordo não chegou a se consolidar nesses termos.

Já no início de julho, o cenário era outro: havia indicação de que JHC poderia compor com Alfredo Gaspar sem necessariamente abrigar Arthur Lira no mesmo palanque, apesar do pacto firmado entre Lira e Gaspar.

A ausência do presidente estadual do PL na convenção, portanto, ocorre justamente num momento em que a engenharia dessa composição continua sem definição definitiva.

Alfredo Gaspar aparece, inclusive, entre os principais nomes da disputa pelo Senado. Pesquisa Paraná divulgada em julho mostrou Gaspar, Lira e Renan Calheiros tecnicamente empatados dentro da margem de erro.

Leonardo Dias reforça gratidão e respeito de Bolsonaro ao declarar apoio a Arthur Lira

Leonardo Dias revela participação de Lira no Hospital da Cidade

Outro trecho do discurso de Leonardo Dias trouxe uma informação diferente para o debate político.

O vereador atribuiu a Arthur Lira participação nas articulações que contribuíram para a aquisição do Hospital da Cidade pela Prefeitura de Maceió, ainda durante a gestão de JHC.

A afirmação é particularmente relevante porque o hospital se tornou uma das vitrines da administração municipal, mas sua aquisição também provocou questionamentos quanto ao valor pago.

A Prefeitura adquiriu o antigo Hospital do Coração por aproximadamente R$ 266 milhões, transformando-o no Hospital da Cidade. Segundo informações oficiais do Município e outras fontes públicas, os recursos utilizados na operação tiveram origem no acordo de indenização firmado entre Maceió e a Braskem em decorrência dos danos provocados pelo afundamento do solo em bairros da capital.

Ao citar Lira, portanto, Leonardo Dias acrescentou ao histórico político daquela aquisição a alegação de que o então presidente da Câmara teria colaborado para que o projeto se concretizasse.

Trata-se de uma informação atribuída pelo vereador ao deputado durante a convenção.

Valor da compra já provocou questionamentos

Os R$ 266 milhões pagos pelo complexo hospitalar foram objeto de críticas desde o anúncio da operação.

A própria CPI da Braskem, instalada no Senado, tratou do assunto. Durante os trabalhos da comissão, foram discutidas a destinação dos recursos pagos pela mineradora ao Município e a compra do hospital sem consulta prévia às comunidades atingidas pelo desastre ambiental. A Prefeitura, por sua vez, sustentou que não existiam indícios de superfaturamento e afirmou que a operação foi acompanhada por estudos de viabilidade e avaliações de mercado.

O senador Omar Aziz também manifestou publicamente estranhamento em relação ao preço. Em registro da Assembleia Legislativa de Alagoas sobre a visita da CPI ao estado, foi reproduzida declaração segundo a qual Aziz questionava um hospital custar cerca de R$ 260 milhões em Maceió.

É nesse contexto que a fala de Leonardo Dias introduz um personagem a mais na história política do Hospital da Cidade: Arthur Lira.

Convenção revelou mais do que o discurso de Lira

A convenção que deveria marcar formalmente a largada de Arthur Lira para o Senado terminou, dessa forma, produzindo informações que extrapolaram o roteiro oficial preparado pelo candidato.

Lira falou em equilíbrio, diálogo e “caminho do meio”. Seus aliados bolsonaristas, porém, fizeram questão de resgatar sua proximidade com o governo Bolsonaro.

Cabo Bebeto disse que o próprio ex-presidente reconheceu que Lira o ajudou a “segurar” pedidos de impeachment.

Leonardo Dias reforçou a colaboração política de Lira com Bolsonaro e ainda revelou, segundo sua versão, a participação do deputado nas articulações relacionadas ao Hospital da Cidade, obra que se tornou símbolo da gestão de JHC e cuja aquisição por R$ 266 milhões foi questionada politicamente e na CPI da Braskem.

E, enquanto os bolsonaristas Bebeto e Dias ocupavam o palco para defender Lira, a principal liderança formal do PL em Alagoas, Alfredo Gaspar, não estava presente.

A ausência ocorre justamente quando Lira e Gaspar tentam preservar uma parceria para o Senado enquanto ainda buscam uma solução para uma composição majoritária que, até agora, não conseguiu reunir definitivamente Arthur Lira, Alfredo Gaspar e JHC no mesmo projeto eleitoral.

O resultado foi uma convenção na qual os discursos dos aliados acabaram revelando aspectos da trajetória e das articulações de Arthur Lira que o próprio candidato, ao reivindicar para si o “caminho do meio”, preferiu deixar fora de sua fala.