Wadson Régis não vence nas urnas, mas faz das barragens uma bandeira que fica para Alagoas
Jornalista entrou na política como protagonista, enfrentou mudança de candidatura na reta final e conseguiu colocar no debate uma causa que conhece também pela própria história familiar: a construção de barragens para proteger a Zona da Mata das enchentes
Acostumado a observar, interpretar e analisar os movimentos da política alagoana, o jornalista Wadson Régis decidiu, em 2026, atravessar a linha que separa o analista do protagonista. Filiou-se ao Solidariedade e colocou seu nome à disposição do eleitorado com uma bandeira que estava longe de ser apenas um discurso eleitoral: a construção de barragens para conter as enchentes que periodicamente castigam municípios da Zona da Mata de Alagoas.
A trajetória eleitoral, porém, sofreu uma reviravolta. Wadson havia se preparado inicialmente para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa. Uma intervenção nacional no Solidariedade alterou os rumos da legenda e prejudicou o planejamento dos candidatos que estavam no partido.
Na reta final, quando uma campanha já deveria estar consolidada, o jornalista precisou mudar completamente de direção. Deixou a disputa para deputado estadual e passou a concorrer a deputado federal.
Para qualquer candidato, uma alteração dessa dimensão a poucos passos das urnas representa um enorme obstáculo. São eleitorado, número de vagas, território político, alianças e estratégia diferentes. Wadson precisou praticamente reconstruir uma candidatura quando o relógio eleitoral já corria contra ele.
Uma bandeira nascida da própria tragédia
Mas havia algo que não mudou: sua principal causa.
Wadson transformou a defesa da construção de barragens na Zona da Mata em um dos pontos centrais de sua campanha. E falava não apenas como candidato ou jornalista, mas como alguém que conhece pessoalmente a dimensão de uma enchente.
Sua própria família foi vítima das inundações que atingiram a região. Seus pais perderam a casa e familiares também tiveram imóveis destruídos pelas águas. A tragédia que milhares de alagoanos conhecem deixou marcas dentro da própria família do jornalista.
Foi dessa experiência que nasceu sua insistência em defender obras capazes de reduzir os efeitos das cheias.
No começo, Wadson praticamente gritou sozinho. Alertou que Alagoas não pode esperar uma nova enchente, contar os mortos, calcular os prejuízos e somente depois voltar a discutir soluções. A prevenção precisa chegar antes da próxima tragédia.
Ao longo da campanha, entretanto, o discurso começou a encontrar eco.
Articulado e conhecedor dos caminhos da política, Wadson conseguiu levar a pauta a diferentes lideranças e conquistar apoios para a proposta. Entre eles esteve Arthur Lira, eleito senador, que abraçou a defesa das barragens e esteve ao lado do jornalista na reta final da campanha.
Uma eleição termina, a causa não
Wadson Régis não conseguiu transformar sua primeira experiência eleitoral em mandato. Mas seria simplista avaliar sua passagem pela eleição apenas pela quantidade de votos depositados nas urnas.
Em política, algumas candidaturas vencem conquistando cadeiras. Outras conseguem deixar temas na agenda pública.
Wadson conseguiu fazer com que uma reivindicação nascida da dor de sua própria família ganhasse dimensão política: Alagoas precisa enfrentar de maneira permanente o problema das enchentes na Zona da Mata, com planejamento, prevenção e obras estruturantes.
A candidatura terminou. A bandeira, não.
Agora, inclusive, existe uma responsabilidade daqueles que durante a campanha aderiram à proposta. Se a construção das barragens foi reconhecida como necessária no período eleitoral, a pauta precisa continuar sendo defendida depois das urnas.
Para Wadson Régis, que saiu da posição confortável de comentarista para experimentar as dificuldades de uma campanha eleitoral, ficou uma vitória diferente daquela registrada nos boletins de urna.
Ele não conquistou o mandato que buscava. Mas conseguiu colocar uma causa no centro da discussão e encontrar aliados para ela.
E, para as famílias da Zona da Mata que convivem com o medo de olhar para o céu a cada período de chuvas fortes, talvez esteja aí o resultado mais importante de sua primeira incursão eleitoral: transformar uma tragédia pessoal em uma luta pública e fazer com que a prevenção às enchentes continue na agenda política de Alagoas.