ENSAIO DE SABATINA

Almoço com Flávio põe em xeque discurso de imparcialidade da Globo

Candidato bolsonarista foi recebido pela cúpula do grupo horas antes de sua sabatina; Lula não teve encontro semelhante, e campanha cobra igualdade de tratamento

Publicado em 16/10/2026 às 20:30
Flávio almoçou com diretores da Globo no início da tarde desta sexta-feira

A direção do Grupo Globo recebeu Flávio Bolsonaro (PL) para um almoço reservado nesta sexta-feira (16), horas antes da entrevista do candidato à Presidência na emissora. O encontro provocou reação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que havia sido entrevistado na véspera e não teve recepção equivalente. A proximidade entre a cúpula empresarial e o candidato bolsonarista colocou a Globo sob cobrança pública por imparcialidade na disputa presidencial.

Flávio foi recebido por João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais, na sede da empresa, no Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. Segundo a apuração do colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, o senador estava acompanhado de Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral de sua campanha, e de um assessor de imprensa.

Ainda conforme Gadelha, esse foi o segundo almoço de Flávio com a direção da emissora. O primeiro ocorreu antes do início oficial da campanha eleitoral, durante uma agenda de visitas do parlamentar a veículos de comunicação.

Lula participou da entrevista conduzida por Renata Lo Prete na quinta-feira (15), exibida após o Jornal Nacional. Coordenadores de sua campanha disseram à colunista Tatiana Farah, do UOL, que o presidente não recebeu convite para um encontro com os executivos. A programação divulgada pela própria Globo estabeleceu as entrevistas de Lula e Flávio para os dias 15 e 16, respectivamente, em ordem definida por sorteio.

Campanha questiona proximidade

O publicitário Sidônio Palmeira, integrante da campanha de Lula, criticou o fato de a direção da empresa receber um presidenciável no mesmo dia em que ele seria entrevistado pela emissora. À coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, Sidônio questionou se o gesto representava uma gentileza ou indicava uma parceria e levantou dúvidas sobre a aparência de parcialidade criada pelo encontro.

“O momento [do almoço] foi totalmente inadequado e inclusive prejudica os profissionais sérios que lá trabalham”, afirmou.

O senador Camilo Santana (PT-CE), um dos coordenadores da campanha petista, também classificou a ocasião como “inoportuna e inadequada”. Em declaração a jornalistas, cobrou que os dois candidatos tivessem oportunidades equivalentes de interlocução com a emissora e destacou a necessidade de imparcialidade durante a disputa.

A controvérsia ganhou outro elemento com uma manifestação do humorista Paulo Vieira. Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que havia sido impedido de cumprimentar Lula no camarim durante a sabatina, sob a justificativa de evitar dúvidas sobre a imparcialidade da empresa. O relato foi divulgado depois de o almoço de Flávio com os dirigentes vir a público.

O episódio também motivou críticas do jornalista Juca Kfouri. Em sua coluna no UOL, ele questionou a transparência da Globo e avaliou que, diante da coincidência com a entrevista, o almoço deveria ter sido desmarcado ou informado previamente pela própria empresa.

Globo diz que atenderia pedido de Lula

A Globo confirmou o encontro e o classificou como uma visita institucional. Em resposta à imprensa, informou que lideranças do Jornalismo não participaram e argumentou que reuniões de cortesia com candidatos integram a rotina dos executivos de empresas de comunicação.

Sobre a diferença entre as agendas dos dois presidenciáveis, a emissora declarou que a campanha de Flávio solicitou a visita, enquanto a de Lula não apresentou pedido semelhante. À Folha, a Globo afirmou que também teria recebido o presidente em um almoço caso houvesse solicitação. O UOL registrou que a campanha petista não pediu uma agenda com João Roberto Marinho.

A explicação esclarece a origem do encontro, mas permanece a cobrança sobre sua oportunidade política. Receber o candidato bolsonarista à mesa da direção no dia de sua sabatina expõe a emissora a questionamentos que atingem sua credibilidade. Para um grupo que reivindica imparcialidade na cobertura eleitoral, a transparência sobre o relacionamento de seus dirigentes com os candidatos também precisa fazer parte desse compromisso.