Eleito senador, Arthur Lira aconselha campanha de Flávio Bolsonaro enquanto mantém influência e cargos no governo Lula
Ex-presidente da Câmara se reúne com coordenador da campanha bolsonarista em Brasília e orienta aliados a priorizar a eleição antes de discutir a divisão de cargos de um eventual governo
O senador eleito por Alagoas Arthur Lira (PP) já não se limita a declarar apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. O ex-presidente da Câmara dos Deputados passou a atuar nos bastidores da campanha da direita, oferecendo conselhos estratégicos à equipe do adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), embora seu grupo político mantenha influência e indicações na estrutura do governo federal.
Segundo informações publicadas nesta sexta-feira (16) pelo jornalista Igor Gadelha, do Metrópoles, Lira participou, na quarta-feira (14), de uma reunião no gabinete do senador Rogério Marinho (PL-RN), principal coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro. O encontro contou com a participação de outros parlamentares ligados ao bolsonarismo e à centro-direita.
Na reunião, Lira aconselhou os integrantes da campanha a concentrarem esforços na vitória eleitoral de 25 de outubro, deixando para depois as negociações sobre a composição de um eventual governo Bolsonaro. A orientação também foi defendida pelo deputado federal Ricardo Barros (PP-PR).
A movimentação evidencia uma contradição política: eleito senador por Alagoas, Arthur Lira se posiciona ao lado da direita na disputa presidencial, enquanto seu grupo conserva espaços de influência na administração do presidente Lula, a quem agora trabalha politicamente para derrotar.
O alinhamento com Flávio Bolsonaro foi oficializado em 7 de outubro, quando Lira anunciou publicamente sua adesão à candidatura do PL, acompanhando a decisão da Federação União Progressista, formada pelo PP e pelo União Brasil.
A influência de Lira na máquina federal não é apenas uma questão de articulação política. Em Alagoas, indicações atribuídas ao seu grupo alcançaram órgãos como a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).
Na CBTU, por exemplo, a nomeação de Max Ferreira para a superintendência de Maceió, em junho de 2025, foi atribuída à influência de Lira. No Dnocs, Juliano Ribeiro Balbino também foi identificado como integrante de seu grupo político. O governo Lula iniciou uma revisão das indicações do Centrão, mas a permanência atual de todos esses ocupantes ainda precisa ser confirmada.
O episódio expõe o desconforto político de uma situação em que aliados beneficiados por indicações na administração federal se alinham ao projeto eleitoral de oposição ao próprio presidente da República.
Na eleição de 4 de outubro, Arthur Lira conquistou uma das duas vagas de Alagoas no Senado, com 948.703 votos, equivalentes a 28,9% dos votos válidos. A vitória consolidou sua presença na política nacional e ampliou sua capacidade de negociação com diferentes grupos partidários.
Durante o primeiro turno, Lira evitou declarar publicamente seu voto para presidente. Somente depois da votação anunciou apoio a Flávio Bolsonaro, movimento que aliados interpretaram também como uma resposta à participação de Lula na campanha alagoana, quando o presidente pediu votos para Renan Calheiros e Dr. Wanderley, adversários de Lira na disputa pelo Senado.
A reunião de quarta-feira também discutiu a aprovação da proposta que acaba com a escala de trabalho 6x1, uma das principais bandeiras defendidas por Lula nesta reta final da campanha. Participaram do encontro, além de Lira, Rogério Marinho e Ricardo Barros, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e o deputado José Medeiros (PL-MT).
Ao aconselhar os estrategistas de Flávio Bolsonaro, Arthur Lira deixa evidente que seu apoio ao candidato da direita vai além de uma manifestação eleitoral. O senador eleito atua diretamente nas articulações para derrotar Lula, enquanto permanece em discussão o destino dos espaços ocupados por seus aliados no governo federal.
A questão política que se impõe é até quando o governo Lula manterá em sua estrutura indicações de grupos que trabalham abertamente pela vitória de seu adversário.
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Com informações da coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles, e de reportagens sobre as indicações federais em Alagoas.