COPA DO MUNDO

Decoração de ruas para a Copa mobiliza moradores no Rio de Janeiro

Comunidades como Morro do Pinto, Morro do Turano e Vila Isabel usam pinturas, bandeirinhas e ações coletivas para celebrar o mundial de 2026

Por Agência Brasil Publicado em 13/06/2026 às 08:45
Rua Pereira Nunes, em Vila Isabel, decorada para a Copa de 2026. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Viver a Copa do Mundo para além dos jogos entre seleções é uma tradição antiga no Brasil. Além dos encontros em família para acompanhar as partidas e das apostas sobre placares no trabalho, um costume voltou a ganhar força no país: a ornamentação das ruas para o mundial.

Com bandeirinhas verdes e amarelas, tintas, desenhos de jogadores famosos e de outras personalidades nacionais, moradores de diferentes localidades têm preparado espaços públicos para a competição.

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A Seleção Brasileira é a maior campeã da Copa do Mundo, com cinco títulos: 1958, na Suécia; 1962, no Chile; 1970, no México; 1994, nos Estados Unidos; e 2002, na Coreia do Sul e no Japão. O Brasil, porém, não vence o torneio há 24 anos.

O período sem títulos não reduziu a empolgação. No Rio de Janeiro, moradores de várias regiões da cidade recorreram à arte para demonstrar apoio ao Brasil em 2026.

Morro do Pinto

No bairro do Santo Cristo, na região central do Rio de Janeiro, moradores da Rua Capiberibe decidiram resgatar lembranças afetivas de quem cresceu na comunidade do Morro do Pinto. A ação teve foco nas crianças que não viveram esses momentos. As atividades foram coordenadas por Isabel Boechat, vice-presidente do Centro Cultural Capiberibe 27.

“A rua foi entrando no clima aos poucos: moradores ajudando, crianças pintando, famílias acompanhando, gente chegando para ajudar, colaborar de alguma forma”, conta.

“Hoje a minha avaliação da ação é que não foi uma ação feita ‘para’ a comunidade, foi feita com a comunidade. Em algum momento, deixou de ser só uma pintura e virou encontro, convivência, pertencimento”.

Segundo Isabel, a mobilização também atraiu moradores do Morro da Providência, do Santo Cristo e de outras partes da região portuária, que participaram da organização.

O material foi custeado com apoio de moradores, amigos, parceiros e pessoas próximas ao Centro Cultural Capiberibe 27, que doou grande parte dos itens utilizados. Comerciantes da região colaboraram com provisões e materiais necessários. As crianças receberam almoço, picolé e lanches durante o processo.

Para Isabel Boechat, mais do que técnica e perfeição, o principal era permitir que as crianças fossem protagonistas da festa, reacender a memória coletiva e reunir a comunidade em torno da Copa.

“Elas [as crianças] pintaram, imaginaram, colocaram cor na rua. E isso tem uma força muito grande, porque talvez no futuro elas lembrem: 'eu pintei a minha rua para a Copa'. Era isso que a gente queria entregar para elas. E acho que conseguimos”, finalizou.

Morro do Turano

A iniciativa no Morro do Pinto também inspirou ações em outras áreas da cidade. O universitário Silvio Rosa, de 21 anos, contou que a escadaria do Morro do Pinto foi uma das referências para a decoração que ajudou a criar na comunidade onde mora, no Rio Comprido, na zona norte.

Morador do Morro do Turano, Silvio disse que nunca havia participado da pintura de uma rua para a Copa do Mundo. A ideia de organizar um dia de grafite surgiu a partir do interesse em envolver as crianças da comunidade.

Semanas depois, ele soube de um concurso organizado pelo projeto Favela Radical, o “Meu Beco na Copa”, e decidiu inscrever a Alameda Manoel Costa.

“A gente não teve muito apoio das pessoas da Alameda e da comunidade. Na verdade, teve muita desconfiança, pessoas falando que a gente não ia conseguir”, disse Silvio, que chegou a pedir doação de materiais aos vizinhos, mas não obteve retorno.

“Foram mais as crianças mesmo, elas, sim, aderiram a todo momento, sempre perguntando pra gente quando ia ser a pintura e tudo mais, sempre ansiosas. E ajudaram muito, de verdade mesmo”.

A ação foi liderada por Silvio, pela namorada dele, Taíssa Brito, e pela artista Anunki, com participação de crianças do Morro do Turano. No último fim de semana de trabalho do grupo, quando o projeto foi concluído, várias partes da comunidade já estavam decoradas.

“Eu vejo como muito positivo, principalmente nesse momento que a gente está vivendo no país, que é um ano eleitoral. E resgatar tudo isso, poder fazer parte disso, resgatar esses símbolos pra nós, pro povo brasileiro, de fato é muito interessante. E viver isso junto com as crianças é mais interessante ainda”, completou.

Rio nas Cores do Hexa

Neste ano, a Prefeitura do Rio de Janeiro lançou um edital para premiar ruas ornamentadas para a Copa do Mundo. O concurso “Acreditar é uma Arte – O Rio nas Cores do Hexa” vai conceder R$ 50 mil ao primeiro lugar, R$ 30 mil ao segundo e R$ 20 mil ao terceiro.

Em Vila Isabel, na zona norte do Rio, a tradicional Rua Pereira Nunes já está pronta para participar. Decorar as ruas para a Copa do Mundo é um costume da Galera da Pereira Nunes há mais de 40 anos. A tradição começou na Copa de 1978 e segue sem interrupções.

Um dos principais responsáveis pela organização da programação, Celso Mendes, de 48 anos, afirma que o planejamento exige tempo e é tratado com seriedade pelos moradores. Ele lidera a Galera da Pereira Nunes desde 1994.

“Nós planejamos a próxima Copa do Mundo assim que acaba, aí, são quatro anos de planejamento. E a relevância para o nosso bairro é enorme, eles esperam a gente planejar essa ornamentação, ficam nos cobrando. Então, é algo muito importante, não só para o nosso bairro, mas para o país, né?”, disse.

A rua já foi tema de reportagens em jornais internacionais. Segundo Celso Mendes, a festa vai além da ornamentação: também estão sendo organizados eventos com transmissão dos jogos e música ao vivo. A Rua Pereira Nunes já venceu quatro concursos e pode chegar ao pentacampeonato, assim como a Seleção Brasileira.

O edital está disponível no site da Secretaria Municipal de Cultura, e as inscrições para o concurso foram prorrogadas até 20 de junho.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Mariana Tokarnia.