“Nós abrimos mão de 70% da nossa terra”: liderança xukuru-kariri diz que povo indígena cedeu área urbana para o crescimento da cidade
Tanawi Kariri afirma que o marco zero da demarcação histórica é em frente à catedral, no Centro de Palmeira, e diz que a maior parte do território indígena foi entregue ao município ao longo dos anos
O líder indígena Tanawi Kariri Kariri em entrevista ao radialista Cláudio André na manhã desta quinta-feira (30), no programa A Notícia da Francês FM que é reproduzido pela Cacique FM afirmou que a narrativa de que os Xukuru-Kariri querem “tomar Palmeira dos Índios” é uma distorção política. Segundo ele, historicamente aconteceu o contrário: o povo indígena abriu mão da maior parte do território original para permitir a expansão da cidade.
“Dos 36 mil hectares que a gente tinha de posse, hoje a gente está reivindicando só 5 mil”, afirmou. “A gente está deixando 29 mil hectares para a cidade de Palmeira dos Índios. A gente perdeu mais de 70% do nosso território.”
Tanawi também fez uma revelação simbólica e política confirmando o que asseverou o jornalista Vladimir Barros há algumas semanas: de acordo com Tanawi, o “marco zero” da demarcação histórica Xukuru-Kariri é exatamente no coração urbano de Palmeira. “É na frente da catedral”, disse ao vivo na rádio. Ou seja, áreas hoje consolidadas no perímetro urbano, inclusive no Centro, teriam feito parte da área indígena original.
Segundo Tanawi, essa renúncia territorial não foi espontânea nem neutra. “Quando a gente sentou para ver a evolução da cidade, a questão geográfica toda, a gente começou a ceder. Muitas vezes induzido”, afirmou. Ele descreve esse processo como algo que vem desde “a primeira demarcação” e que, segundo ele, se mantém até hoje: “O direito do povo Xukuru-Kariri vem sendo violado a todo momento.”
Para ele, o discurso de que “os índios vão acabar com Palmeira dos Índios” é usado para provocar pânico entre moradores e pequenos produtores rurais, em troca de capital eleitoral. “É política feita com medo. Tem gente que quer transformar a população em massa de manobra.”
Tanawi diz que a prioridade agora é pacificar, explicar e tirar o debate da mentira eleitoral. “Não existe nenhum argumento jurídico ou social que mande parar o processo. É um processo legal e justo. O que a gente quer é que ele aconteça dentro da lei e em paz.”
Ele confirmou que haverá uma assembleia na Aldeia Fazenda Canto, com presença do Ministério Público Federal, da Defensoria Pública da União e de órgãos estaduais, para prestar esclarecimentos à população — indígena e não indígena — sobre a regularização fundiária, indenizações e próximos passos da homologação.