EUA são acusados de usar ameaças para barrar acordo climático da ONU sobre transporte marítimo
Delegados denunciam pressão e intimidação dos Estados Unidos para impedir avanço de proposta que previa taxas sobre emissões de carbono no setor marítimo global.
Delegados internacionais acusam o governo Trump de empregar ameaças pessoais e econômicas para inviabilizar um acordo climático da ONU sobre transporte marítimo. A proposta, que previa a implementação de taxas sobre emissões de carbono, foi adiada após forte pressão dos EUA sobre países vulneráveis, provocando críticas à diplomacia norte-americana.
Autoridades do governo Trump teriam utilizado táticas de intimidação, segundo relatos de mais de dez diplomatas e observadores ao Financial Times (FT), especialmente contra representantes de países africanos, caribenhos e do Pacífico. Os delegados relataram abordagens em intervalos informais, nas quais foram alertados sobre possíveis restrições de entrada nos EUA para eles e suas famílias caso apoiassem o acordo.
O então presidente Donald Trump classificou a proposta como um "golpe verde global" e pediu publicamente o seu bloqueio. A estrutura, aprovada provisoriamente em abril, previa a criação de uma Estrutura de Emissões Líquidas Zero e deveria se tornar juridicamente vinculativa, mas as negociações foram adiadas por um ano após a pressão norte-americana.
Diplomatas relataram ameaças explícitas, como aumento de taxas portuárias e restrições de visto para tripulações de navios, segundo o FT. Um veterano da Organização Marítima Internacional (OMI) comparou o comportamento dos EUA a táticas mafiosas, destacando que a intimidação foi direta e sem precedentes no fórum técnico da ONU.
O Departamento de Estado dos EUA não comentou as acusações, mas elogiou países como Grécia e Chipre por se absterem na votação. O secretário Marco Rubio afirmou que o governo avaliava sanções contra funcionários que promovem políticas climáticas consideradas prejudiciais aos consumidores norte-americanos.
Especialistas advertiram à mídia britânica que a postura agressiva dos EUA pode comprometer sua influência global a longo prazo. Creon Butler, da Chatham House, afirmou que outros países podem passar a negociar entre si, contornando os Estados Unidos em futuras tratativas climáticas.
Delegados de países como Brasil, Japão e Indonésia confirmaram ter sido alvo de démarches diplomáticas e notas alertando sobre "medidas recíprocas", incluindo tarifas adicionais e sanções pessoais. A pressão foi descrita como intensa e direcionada, com ameaças específicas a membros das delegações.
Apesar do adiamento do acordo, muitos diplomatas acreditam que, enquanto Trump permanecer na presidência, será difícil avançar na implementação da medida. As negociações técnicas seguem em andamento, mas são vistas como pouco produtivas diante do clima de intimidação instaurado nas reuniões.