DIPLOMACIA INTERNACIONAL

Nigéria aceita ajuda dos EUA contra extremistas, mas exige respeito à soberania

Governo nigeriano responde a ameaças de intervenção militar dos Estados Unidos e reforça compromisso com a integridade territorial diante de acusações sobre violência religiosa.

Publicado em 02/11/2025 às 15:28
© AP Photo / Sunday Alamba

O governo da Nigéria afirmou neste domingo (2) que está aberto a receber apoio dos Estados Unidos no combate a grupos extremistas islâmicos, desde que sua soberania e integridade territorial sejam respeitadas.

A declaração foi feita por Daniel Bwala, assessor do presidente nigeriano Bola Tinubu, em entrevista à Reuters, após o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçar uma intervenção militar no país africano sob a justificativa de um suposto massacre de cristãos.

"Acolhemos com satisfação a ajuda dos EUA, desde que respeite a nossa integridade territorial", afirmou Bwala.

No sábado (1º), Trump anunciou que solicitou ao Departamento de Defesa dos EUA que se preparasse para uma possível ação militar "rápida" na Nigéria, caso o governo local não adotasse medidas firmes para impedir assassinatos de cristãos.

Bwala buscou amenizar as tensões entre os dois países, apesar de Trump ter classificado a Nigéria como um país "vergonhoso".

"Estou confiante de que, quando esses dois líderes [Tinubu e Trump] se encontrarem e sentarem para conversar, haverá melhores resultados em nossa determinação compartilhada de combater o terrorismo."

Violência extremista desafia a Nigéria há anos

Com mais de 200 milhões de habitantes e cerca de 200 grupos étnicos, a Nigéria é dividida entre um norte majoritariamente muçulmano e um sul predominantemente cristão. Grupos insurgentes como Boko Haram e Estado Islâmico da Província da África Ocidental atuam há mais de 15 anos, causando milhares de mortes, especialmente no nordeste do país, de maioria muçulmana.

Especialistas apontam que, embora cristãos também sejam vítimas, a maioria dos mortos é muçulmana. No centro da Nigéria, são frequentes os conflitos entre pastores muçulmanos e agricultores cristãos por recursos naturais, enquanto no noroeste, sequestros para resgate são comuns.

"Grupos rebeldes, como o Boko Haram e o Estado Islâmico da Província da África Ocidental, frequentemente retratam suas campanhas como anticristãs, mas, na realidade, sua violência é indiscriminada e devasta comunidades inteiras", explica Lad Serwat, analista sênior para a África do Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED).

Segundo Serwat, a violência está inserida em uma dinâmica complexa de disputas políticas, territoriais, étnicas e sectárias. Dados do ACLED revelam que, dos 1.923 ataques contra civis registrados neste ano na Nigéria, 50 foram motivados por fé cristã. O analista ainda desmente alegações de setores da direita norte-americana de que 100.000 cristãos teriam sido mortos no país desde 2009, afirmando que os números não são corroborados pelas pesquisas.

Nigéria rejeita acusações de intolerância religiosa

A ameaça de intervenção militar de Trump veio logo após a reinclusão da Nigéria na lista de "países de preocupação especial" dos EUA, que aponta violações à liberdade religiosa. Também figuram na lista China, Mianmar, Coreia do Norte, Rússia e Paquistão.

Bola Tinubu, muçulmano do sul do país casado com uma cristã, respondeu às acusações de intolerância religiosa e defendeu o compromisso do governo nigeriano com a proteção das liberdades religiosas.

Ao compor o governo e as Forças Armadas, Tinubu tem buscado garantir equilíbrio entre muçulmanos e cristãos. Na semana passada, ele nomeou um cristão para chefiar a defesa nacional, reforçando o compromisso com a representatividade.

Por Sputnik Brasil