LETALIDADE POLICIAL

Moraes destaca 'descompasso' entre inquérito e alvos de operação que deixou 121 mortos no Rio

Ministro do STF chama atenção para diferença entre número de vítimas e quantidade de pessoas efetivamente investigadas; entidades pedem federalização das apurações

Publicado em 05/11/2025 às 14:11
Reprodução / Agência Brasil

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes chamou atenção para o “descompasso” entre o inquérito policial e o desdobramento da operação que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro na semana passada. A preocupação foi externada na manhã desta quarta-feira, 5, durante audiência com entidades defensoras dos direitos humanos, no âmbito da ADPF das Favelas — ação que estabeleceu diretrizes para reduzir a letalidade policial.

Segundo relatos de participantes da audiência, Moraes destacou que apenas cinco pessoas, entre mortos, feridos e presos na operação, eram de fato alvos dos mandados de busca e apreensão originais.

“Ou seja, das mais de 200 vítimas da operação, entre mortos e presos, apenas cinco estavam no inquérito original. Esse descompasso, o ministro Alexandre de Moraes chamou bastante atenção para ele e disse que isso deve ser apurado”, afirmou a jornalistas a deputada estadual Dani Monteiro (Psol-RJ), que participou da audiência representando a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Durante a reunião, um dos pontos levantados foi a necessidade de controle externo da atividade policial — ou seja, por órgãos que não participaram diretamente da operação. Representantes das entidades solicitaram a federalização da investigação para apurar possíveis abusos na atuação policial.

De acordo com relatos, o ministro afirmou que vai avaliar, junto à Procuradoria-Geral da República, a decisão que afastou o Ministério Público Federal do caso. O afastamento foi determinado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que atribuiu a competência para o controle externo ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ).

A advogada e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luciana Boiteux, relatou que as organizações da sociedade civil e os familiares das vítimas têm uma “preocupação muito grande” com o “excesso de confiança” no MPRJ.

“O que se tem notícia é que o Ministério Público Estadual participou do planejamento da operação. Então, o que se entende é que, se o Ministério Público participou do planejamento da operação, ele não tem condições de exercer a fiscalização”, afirmou Boiteux.

Segundo participantes da audiência, Moraes também teria dito que solicitou ao governador do Rio, Cláudio Castro (PL), autorização para ir até a mata onde foi realizada a operação policial, a fim de verificar a atuação da polícia. O governador, porém, teria respondido que não poderia garantir a segurança do ministro no local. Moraes se reuniu com Castro e outras autoridades na última segunda-feira, no Rio.