Câmara aprova decreto para sustar resolução que assegura aborto legal a crianças vítimas de estupro
Projeto de decreto legislativo, que ainda será analisado pelo Senado, anula norma do Conanda que facilitava acesso de meninas menores de 18 anos ao procedimento em casos de violência sexual
A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (5) um projeto de decreto legislativo que susta a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), responsável por garantir o aborto legal a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Foram 317 votos favoráveis e 111 contrários à sustação da norma. O texto segue agora para análise do Senado.
A votação ocorreu de forma semipresencial, em sessão esvaziada, presidida pelo vice-presidente da Casa, Altineu Cortes (PL-RJ). O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), estava em Buenos Aires participando do 1º Fórum de Buenos Aires, promovido pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, fundado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.
A resolução questionada por deputados da oposição e do Centrão garantia o acesso de meninas menores de 18 anos à interrupção da gestação "sem a imposição de barreiras sem previsão legal". O texto do Conanda estabelecia que o acesso de crianças vítimas de estupro ao aborto legal não dependeria de boletim de ocorrência ou decisão judicial autorizativa.
Além disso, a norma indicava que o limite de tempo gestacional para a realização do aborto não possui previsão legal, "não devendo ser utilizado pelos serviços como instrumento de óbice para realização do procedimento".
O deputado Luiz Gastão, relator do projeto, argumentou que há "contrariedade entre a resolução e o direito à vida", além de considerar que o Conanda "extrapola os limites legais, a vida, a literatura médica e o próprio bom senso". Segundo o parlamentar, o texto do Conanda "apresenta texto infralegal que cria interpretações que permitem a relativização das hipóteses de aborto".
Durante o debate, o Ministério das Mulheres divulgou nota em que afirma que, ao anular a resolução do Conanda, o projeto de decreto legislativo da Câmara "cria um vácuo que dificulta o acesso de meninas vítimas de estupro ao atendimento e representa um retrocesso em sua proteção".
"A resolução do Conanda, construída com a participação da sociedade civil, não ultrapassa suas funções e nem cria novos direitos, ela apenas detalha como aplicar a lei para salvar vidas. Suspender esta medida é fechar os olhos para a violência e falhar com as meninas brasileiras", destacou a pasta.
O ex-presidente do Conanda e ex-secretário nacional dos direitos da criança, Ariel de Castro Alves, classificou a decisão da Câmara como um "precedente perigoso".
"Entendo que (o PDL) é uma afronta às atribuições legais do Conanda de regulamentar as previsões do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e abre um precedente perigoso. Desde 1991, nenhuma resolução do Conanda foi revogada desta forma. Um grande desrespeito ao órgão paritário (governo e sociedade civil) de deliberação sobre as políticas públicas na área da infância e adolescência", afirmou o advogado e membro da Comissão Nacional da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB.