PCC usava fórmulas químicas profissionais para adulterar combustíveis no Piauí, aponta investigação
Polícia Civil identifica rede ligada ao crime organizado que utilizava engenharia química para fraudar combustíveis em postos do Norte e Nordeste. Esquema envolvia empresas de fachada e movimentou recursos ilícitos.
A Polícia Civil do Piauí revelou que uma rede de postos, associada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizava fórmulas químicas elaboradas para ampliar a adulteração de combustíveis nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. A descoberta ocorreu durante a Operação Carbono Oculto 86, deflagrada nesta semana para desmantelar um esquema de lavagem de dinheiro e fraude no setor.
Segundo o secretário de Segurança Pública do Piauí, Chico Lucas, a operação expôs, pela primeira vez, a conexão entre o braço financeiro do PCC e o setor de combustíveis nessas regiões.
Imagens encontradas no celular de um dos investigados mostram quatro receitas distintas de adulteração, com cálculos de custos e parâmetros técnicos que indicam o uso de engenharia química profissional. De acordo com a Polícia Civil, análises iniciais da área técnica de qualidade da Agência Nacional do Petróleo (ANP) apontam que a adulteração tinha características "profissionais" e foi planejada para burlar os testes de fiscalização.
"O criminoso aufere vantagens econômicas irregularmente e prejudica o consumidor pela perda de conteúdo energético e descumprimento das especificações de qualidade. Um teste simples da proveta poderia desmascarar a fraude", apontam as impressões iniciais da agência.
O material apreendido inclui anotações detalhadas sobre a mistura de derivados e tipos de etanol, elaboradas para simular a composição da gasolina automotiva. Em uma das fórmulas, a combinação alterava o equilíbrio entre gasolina e álcool, violando as especificações de qualidade.
Outros cálculos indicam o uso de insumos de baixo custo e aditivos sem identificação, o que, segundo técnicos, demonstra a tentativa de aproximar o produto da aparência da gasolina regular. Uma análise preliminar apontou que parte das misturas seria capaz de enganar testes de campo e o exame da proveta, aparentando estar dentro dos parâmetros legais.
O percentual de etanol anidro na gasolina tipo C, padrão comercializado no país, passou de 27,5% para 30% em agosto de 2025, conforme resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Misturas fora desses limites configuram adulteração e crime contra as relações de consumo. Os investigadores ressaltam que o rascunho apreendido pode ser anterior a agosto deste ano.
A Operação Carbono Oculto 86 também revelou que o grupo utilizava empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs para movimentar recursos ilícitos e ocultar patrimônio.
"O fato de o crime organizado ter penetrado em um ramo de atividade lícita, causando prejuízo ao consumidor e promovendo concorrência desleal, mostra que é necessário combater não só os crimes violentos das facções, mas também desfinanciar suas operações", destacou o secretário Chico Lucas.
A rede investigada, que operava dezenas de unidades no Piauí, Maranhão e Tocantins, teria ligação direta com os mesmos operadores financeiros e fundos expostos na Operação Carbono Oculto, deflagrada em São Paulo, que apurou um esquema nacional com movimentação de R$ 52 bilhões.
Para Chico Lucas, o compartilhamento de informações entre os estados poderia ser mais ágil. "Hoje há várias questões legais que precisam ser superadas. O que se discute é que alguns tipos de informações poderiam circular entre órgãos de segurança e o Ministério Público com menos engessamento, permitindo mais agilidade nas investigações", afirmou.
O inquérito sobre o esquema envolvendo postos e distribuidoras nos estados do Norte e Nordeste foi instaurado após a venda da Rede de Postos HD para a Pima Energia e Participações, empresa aberta apenas seis dias antes da aquisição. O fato reforçou a suspeita de que a transação serviu para mascarar a origem dos recursos. O valor do negócio não foi divulgado.