FATURAMENTO

Supermercados criam fintechs próprias para ampliar margem e controlar fluxo financeiro

Setor que movimentou R$ 1,067 trilhão em 2024 passa a internalizar receitas financeiras antes concentradas em bancos e adquirentes

Por Carolina Lara Publicado em 10/03/2026 às 16:47
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O setor supermercadista brasileiro registrou faturamento de R$ 1,067 trilhão em 2024, o equivalente a 9,12% do Produto Interno Bruto, segundo o Ranking ABRAS 2025, da Associação Brasileira de Supermercados. O segmento reúne mais de 424 mil lojas e atende cerca de 30 milhões de consumidores por dia. 

Ao mesmo tempo, o Banco Central aponta que o Pix segue como o meio de pagamento mais utilizado no país em número de transações, consolidando a digitalização financeira no varejo.

Rafael Franco, especialista em tecnologia para operações financeiras e CEO da Alphacode, empresa com mais de 20 anos no desenvolvimento de aplicativos corporativos e mais de 300 projetos entregues, afirma que o cenário abriu espaço para uma mudança estrutural no setor. “A rede supermercadista sempre operou como concentradora de fluxo financeiro. O que mudou foi a possibilidade de capturar valor com estrutura regulada e tecnologia própria”, diz.

Para o executivo, o movimento não se resume à criação de um aplicativo, mas à construção de uma engrenagem financeira integrada ao negócio principal. “Quando o supermercado estrutura uma fintech ou opera em parceria com uma plataforma de Banking as a Service, ele passa a monetizar antecipação de recebíveis, crédito ao consumidor e programas financeiros de fidelidade”, afirma. 

A antecipação estruturada para fornecedores é uma das principais alavancas. Ao oferecer liquidez antecipada mediante desconto, a rede melhora o relacionamento comercial e amplia poder de barganha. “Margem não nasce na venda, nasce na compra. Se a rede consegue melhorar condições financeiras na cadeia, ela aumenta rentabilidade sem pressionar preço ao consumidor”, explica.

No lado do cliente, o crediário próprio, carteiras digitais e programas de cashback ampliam ticket médio e recorrência. Segundo Franco, a diferença em 2026 é que redes regionais também conseguem acessar essa estrutura. “Hoje é possível começar de forma modular, com um produto financeiro específico, e evoluir conforme a maturidade da operação”, destaca.

Para redes que pretendem estruturar esse modelo, ele aponta cinco cuidados estratégicos. Antes de avançar, é necessário avaliar onde está a maior oportunidade financeira dentro da operação.

O especialista aponta cinco medidas para estruturar fintech no supermercado e ampliar margem com controle de risco

A adoção exige planejamento técnico, governança e indicadores claros de retorno.

  • Definir um caso de uso prioritário
    Começar por uma frente de impacto imediato, como antecipação para fornecedores ou crédito simples no checkout, reduz risco e permite mensurar resultados.
  • Escolher parceiro com estrutura regulatória sólida
    Operações financeiras exigem aderência às normas do Banco Central e, quando aplicável, da Comissão de Valores Mobiliários. Avaliar histórico e governança do parceiro é etapa indispensável.
  • Integrar tecnologia ao sistema de gestão
    A solução precisa estar conectada ao ERP, meios de pagamento e programas de fidelidade. Sem integração, perde-se eficiência operacional e inteligência de dados.
  • Estruturar política rigorosa de crédito e risco
    Critérios claros de concessão e monitoramento evitam inadimplência descontrolada. “Crédito mal modelado pode comprometer margem em vez de fortalecê-la”, alerta.
  • Medir impacto em margem e capital de giro
    Cada produto financeiro deve ter indicadores definidos de retorno. A fintech precisa ser ferramenta de eficiência financeira, não apenas inovação estética.

Para Franco, a consolidação do Pix, o avanço do open finance e a ampliação da infraestrutura regulada criaram ambiente favorável para essa transformação. “Supermercado que entende sua operação financeira como ativo estratégico ganha vantagem competitiva real. Não se trata de virar banco, mas de gerir melhor o que já faz diariamente”, conclui.