CUBA

Cubanos adaptam rotina a apagões e restrições atribuídas às sanções dos EUA

Em Havana, moradores relatam cortes prolongados de energia, dificuldades em serviços básicos e mudanças no cotidiano de famílias, escolas e unidades públicas.

Por Sputnik Brasil Publicado em 13/06/2026 às 03:07
Legenda não informada no material original. © AP Photo / Ramon Espinosa

Havana, capital de Cuba, enfrenta há vários meses uma realidade que antes era mais comum em outras regiões do país: apagões que podem durar quase 30 horas, fornecimento de eletricidade por apenas uma ou duas horas diárias e dificuldades no acesso a serviços básicos.

O cenário é apresentado como consequência das medidas de Washington contra a nação caribenha. A situação, considerada cada vez mais complexa, tem impacto em áreas tratadas como pilares do programa social da ilha, como educação e saúde, além de afetar a rotina das famílias em meio às tensões geradas pelos Estados Unidos.

Com a falta de eletricidade ou de gás para cozinhar, moradores têm recorrido a alternativas tradicionais, como carvão e lenha, recursos usados em outros momentos da história recente cubana, a exemplo do chamado Período Especial, crise econômica iniciada na década de 1990.

Nas ruas da capital, também cresce a presença de triciclos elétricos com painéis solares, apontados como uma das soluções mais criativas para o transporte.

Em algumas casas, moradores compraram estações de carregamento, painéis solares, inversores, baterias e ventiladores recarregáveis para reduzir os efeitos das longas horas sem energia. Medidas semelhantes também vêm sendo adotadas em instituições estatais, como policlínicas, hospitais, escolas e empresas.

O cotidiano

Para o professor universitário e doutor em ciências históricas Fabio Fernández, uma das faces mais visíveis das dificuldades enfrentadas em Havana é a maior frequência dos apagões. Segundo ele, os cortes “sempre ultrapassam 15 horas e facilmente chegam a 24, números absolutamente impensáveis na capital há alguns meses”.

Fernández afirmou à Sputnik que outro problema está nas comunicações, já que a falta de energia “afeta os centros de retransmissão de sinal e, portanto, o serviço de telefonia celular e a cobertura de internet, aspectos que se deterioraram significativamente”.

Apesar disso, em comparação com janeiro e fevereiro, quando foi anunciado o endurecimento das sanções de Washington, o especialista disse haver “uma estabilidade notável na área do transporte privado”, embora as tarifas tenham sido ajustadas diante do aumento dos custos de combustível e do custo de vida em geral.

“Os cubanos continuam a viver e a tentar sobreviver em todos os aspectos das suas vidas. As mães cubanas esforçam-se para garantir que os seus filhos tenham um bom desempenho na escola, e as famílias que enfrentam tratamentos médicos fazem tudo o que é possível para que tudo corra da melhor forma possível num contexto de dificuldades e escassez”, observou.

O professor também afirmou que “as pessoas adaptaram-se e encontraram formas de sobreviver, como cozinhar a sua própria comida [...]. O povo cubano é resiliente porque temos capacidade para o ser, e não temos outra escolha”.

Em entrevista à publicação, a economista Omar Everleny Pérez, assessora acadêmica do Centro Cristão de Reflexão e Diálogo e ex-professora da Universidade de Havana, disse que a saída ou redução das operações de redes hoteleiras estrangeiras não provocou mudanças significativas no turismo, um dos principais setores econômicos da ilha.

Segundo Pérez, a situação em Cuba é muito difícil. “As sanções afetam as pessoas mais pobres, que vivem em situação de mera sobrevivência, como acontece no bairro onde moro”, comentou. Ela acrescentou que esse cenário provavelmente será refletido no PIB ao fim do ano.

Adaptação a novos cenários

O agravamento da crise energética levou à adoção de medidas como a antecipação do fim do ano letivo, processo que deverá ocorrer gradualmente entre 15 e 30 de junho, conforme explicou recentemente a ministra da Educação cubana, Naima Trujillo.

Yanae Naredo, jovem formada em Biblioteconomia e Ciência da Informação e mãe de duas crianças de nove anos, disse à Sputnik que, embora a medida seja necessária, ela obriga os alunos a encerrar o ano letivo de forma abrupta.

Ela afirmou que as crianças tiveram de concluir atividades durante “muitas horas de apagões”, o que prejudica o desempenho acadêmico. Segundo Yanae, os intervalos ocorreram em condições precárias, e a maioria dos estudantes precisou fazer tarefas e estudar à luz de velas ou de lâmpadas recarregáveis.

Como mãe, ela disse que cresce sua preocupação com a segurança alimentar dos filhos, tanto em casa quanto na escola, porque “os alimentos não recebem refrigeração suficiente durante as poucas horas de eletricidade disponíveis”.

Para Vilma, outra mãe cubana ouvida pela publicação, a medida foi positiva: o filho obteve boas notas nas provas finais e nos trabalhos práticos. Sobre a rotina, ela afirmou que segue uma vida normal, “suportando os apagões, trabalhando e lutando. A vida muda, mas a gente continua”.

Por Sputnik Brasil