Vladimir Barros
É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.Entre irmãos e inimigos: a alma humana na política
Na política, a gente gosta de fingir que o problema é o sistema - quando, muitas vezes, o problema é o homem. E o homem, esse bicho que se põe de terno, se dá cargo, se concede autoridade e depois se convence de que é “institucional”, carrega dentro de si a mesma sopa fervendo que Dostoiévski colocou na mesa dos Karamázov: amor e ressentimento, ternura e inveja, fé e cinismo, carência e vaidade, culpa e desejo de absolvição.
Antes de seguir, vale acender uma pequena luz - sobretudo para a juventude que, de tanto viver em rolagem infinita no celular, já não sabe mais onde termina a tela e começa o pensamento. Fiódor Dostoiévski foi um dos gigantes da literatura russa do século XIX, um escritor que mergulhou como poucos nos subterrâneos da alma humana: culpa, fé, desejo, miséria, orgulho, redenção. Foi, inclusive, um autor querido por Graciliano Ramos - nosso Graciliano, seco, duro, preciso, que entendia a dor humana sem precisar de adjetivo. E é uma pena - uma pena mesmo - que tanta gente nova não conheça Dostoiévski porque está viciada, em ritmo de ansiedade, em Instagram e TikTok, num consumo de segundos que dispensa silêncio, complexidade e profundidade. É como trocar um banquete por salgadinho: mata a fome, mas não alimenta.
“Os Irmãos Karamázov”, por baixo da trama e das discussões filosóficas, é um romance sobre relações humanas: como a gente ama, como a gente cobra, como a gente trai sem perceber, como a gente tenta ser bom e falha com convicção. É também um romance sobre a família - esse primeiro parlamento do mundo, onde cada um aprende a negociar afeto, poder e medo. A política, por sua vez, é a família ampliada com orçamento, microfone e palanque. E, como toda família, vive de conversas interrompidas, de memórias editadas, de mágoas herdadas, de promessas que viram chantagem emocional.
Em casa, a gente aprende cedo que existem irmãos que pedem carinho e recebem regras. Irmãos que recebem aplauso e devolvem arrogância. Irmãos que se sentem invisíveis e, para serem vistos, derrubam a mesa. O Karamázov de hoje, no gabinete, é esse mesmo irmão - só que com assessoria e discurso. A diferença é que, na política, a briga pelo colo vira briga pelo cofre; a disputa pela atenção vira disputa pelo controle da narrativa; a necessidade de reconhecimento vira projeto de poder.
Dostoiévski nos mostra algo desconfortável: a moral, muitas vezes, é um campo de batalha íntimo. A pessoa não é boa ou má como num carimbo; ela é um conflito andando. Um personagem pode amar com sinceridade e, no minuto seguinte, desejar a ruína do outro. Pode defender princípios e, ao mesmo tempo, negociar a própria consciência. Pode chorar por compaixão e rir por vingança. Isso é humano. E é exatamente por isso que a política não deveria ser tratada como um concurso de santos, mas como uma arena de paixões, medos e fantasias.
A política vive de relações - e relações vivem de expectativas. Quem vota espera reconhecimento. Quem se elege espera obediência. Quem se aproxima espera vantagem. E quem discorda espera o castigo do ostracismo. É aí que a coisa degringola: quando a relação deixa de ser encontro e vira contrato afetivo. “Eu te ajudei, agora você me deve.” Em família, essa frase arruína almoços. Na política, ela arruína cidades.
O eleitor, muitas vezes, age como filho em busca de pai: quer proteção, quer ordem, quer alguém que “dê jeito”. O político, por sua vez, às vezes age como pai carente: quer ser amado, quer ser lembrado, quer ser a referência. E quando o amor não vem, vem a irritação. Quando o aplauso diminui, aumenta o tom de voz. Quando as críticas aparecem, surgem os inimigos imaginários. Quem já viu um lar se quebrando reconhece o padrão: a pessoa passa a disputar a realidade. “Eu fiz tudo.” “Ninguém me reconhece.” “Estão contra mim.” A família inteira vira “oposição”.
E há um traço karamazoviano que a política adora: a capacidade de transformar culpa em virtude. O sujeito erra, mas faz um discurso sobre coragem. O sujeito falha, mas veste a falha de perseguição. O sujeito compromete o coletivo, mas chama isso de “posição firme”. É uma alquimia sentimental muito antiga: trocar responsabilidade por narrativa. No romance, os personagens buscam justificativas para não encarar o próprio abismo. Na política, a justificativa vira coletiva: “Não fui eu, foi o sistema”. E, veja, o sistema existe. Mas ele também é feito de gente - gente que escolhe, gente que cede, gente que se vende, gente que se engana.
A tragédia (e a comicidade amarga) é que a política, quando desumaniza o outro, repete o pior das famílias disfuncionais: a incapacidade de ouvir. É o que Dostoiévski faz a gente encarar: o outro não é personagem da nossa história; ele é uma história inteira. Só que, no palanque, o outro vira obstáculo. No plenário, vira inimigo. Na internet, vira alvo. E, quando a relação vira guerra, qualquer gesto de empatia parece fraqueza. O sujeito prefere estar certo a estar junto. Prefere vencer a compreender. Prefere destruir o argumento a reparar o vínculo.
Mas tem mais: Dostoiévski cutuca também o nosso desejo de justiça - essa fome bonita que, sem cuidado, vira fome de punição. A política é cheia de gente que ama a palavra “justiça” como quem ama uma espada: não para equilibrar, mas para cortar. A justiça, quando vira espetáculo, perde o rosto humano e vira instrumento de humilhação. E aí, de novo, a família aparece: quantas vezes uma casa não desmorona porque alguém decide “dar uma lição”? A lição, em geral, sai cara. Na política, sai coletiva.
O paralelo mais cruel é o seguinte: o romance nos mostra que a vida moral do indivíduo é atravessada por relações — com o pai, com os irmãos, com Deus, com a culpa, com o desejo, com o perdão. A política deveria ser, no mínimo, uma tentativa de organizar essas relações em benefício do comum. Mas o que acontece com frequência? A política se torna o lugar onde as relações humanas são usadas como combustível: amizade vira moeda, lealdade vira algema, divergência vira traição, crítica vira crime de lesa-majestade.
E, no entanto, há uma saída que é também karamazoviana: o reconhecimento de que ninguém é só o papel que desempenha. Que o adversário não é apenas “o outro lado”; que o eleitor não é um número; que o servidor não é uma peça; que o cidadão não é plateia. A política só melhora quando volta a ser relação humana de verdade - com limites, com transparência, com responsabilidade, com escuta. Sem isso, ela vira exatamente o que a pior família vira: um conjunto de pessoas vivendo juntas, mas sem se ver.
No fundo, Dostoiévski está nos lembrando que o problema do mundo começa no coração - e não termina no Diário Oficial. A política pode até se organizar por leis, mas ela se move por afetos. E afetos não são neutros. Eles pedem maturidade, pedem contenção, pedem uma coisa cada vez mais rara: a coragem de admitir falhas sem transformar todo erro em trama.
Porque a maior tentação de um Karamázov - no romance e fora dele - é sempre a mesma: achar que a própria dor dá direito a tudo. “Sofri, então posso.” “Fui injustiçado, então mereço.” “Me atacaram, então posso atacar.” Assim é que relações se destroem. Assim é que política se apodrece.
E talvez o gesto mais revolucionário, hoje, seja menos grandioso do que se imagina: tratar a política como aquilo que ela é - um espelho ampliado do humano. Olhar para o jogo e, antes de acusar o “sistema”, perguntar: que tipo de relação a gente está normalizando? A relação da cobrança eterna? A relação do favor? A relação do medo? A relação do ódio?
Porque, no fim, toda política é um romance de relações humanas - só que, quando dá errado, quem paga não é apenas a família: é a cidade inteira.