SALADA POLÍTICA II

Vereador do Solidariedade em Palmeira dos Índios ignora Helô e apoia dois adversários: Rui para federal e JHC para governador

Fábio Targino passa ao largo da pré-candidatura da palmeirense Helô Bezerra de seu partido, escolhe Rui Palmeira para federal e JHC para governador, apesar de os dois serem adversários ferrenhos em Maceió

Por Redação Publicado em 16/06/2026 às 08:24
Pivô da crise, Fábio Targino apoia Rui, crítico feroz de JHC, e o próprio JHC

O vereador Fábio Targino (SD) tornou-se o personagem central da crise que colocou a Câmara Municipal de Palmeira dos Índios em confronto aberto com a prefeita Luísa Júlia Duarte (MDB) e com o ex-prefeito Júlio Cezar (PSD).

A brincadeira começou depois que Targino decidiu apoiar Rui Palmeira, do PSD, para deputado federal, contrariando frontalmente o projeto eleitoral de Júlio Cezar, sobrinho da prefeita e também interessado em disputar uma vaga na Câmara dos Deputados e no mesmo partido de Rui.

Segundo informações colhidas pela Tribuna do Sertão nos bastidores políticos, uma escolha provocada forte ocorrência no grupo governamental. Pessoas indicadas por Fábio Targino para trabalhar na Prefeitura tiveram seus vínculos encerrados, numa medida interpretada pelo vereador e por seus aliados como retaliação política.

A resposta veio da Câmara.


Integrante de um bloco que reúne 14 dos 15 vereadores, Targino recebeu a solidariedade de colegas que passaram a iniciar a gestão para que os trabalhadores indicados por ele fossem novamente contratados.

A crise saiu dos bastidores e chegou ao plenário, onde vereadores fizeram discursos agressivos, ameaçaram intensificar a oposição e anunciaram a prefeita de que mexer nos espaços políticos de um significado parlamentar enfrentaria praticamente toda a Casa.

Mas o episódio ganhou uma nova e curiosa contradição.


Poucos dias depois de confirmar o apoio a Rui Palmeira para deputado federal, Fábio Targino anunciou que votará em João Henrique Caldas, o JHC, para o Governo de Alagoas.

A escolha produz uma combinação difícil de explicar: Rui Palmeira é hoje um dos mais ferrenhos opositores de JHC em Maceió.

Rui para federal, JHC para governador


Na urna de Fábio Targino, Rui Palmeira e JHC votarão no mesmo palanque eleitoral.

A política de Maceió, porém, está em lados completamente opostos.

Rui, ex-prefeito da capital e actualmente vereador, transformou a fiscalização da antiga gestão de JHC numa das principais marcas do seu mandato.
O vereador cobra explicou sobre os investimentos realizados pelo Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió no Banco Master e relacionando as aplicações à administração conduzidas por JHC.

Em pronunciamentos na Câmara e nas redes sociais, Rui questionou quem indicou o banco, quem liderou uma consultoria Crédito & Mercado para o Iprev e quem autorizou a aplicação de aproximadamente R$ 117 milhões pertencentes ao fundo dos aposentados e pensionistas.

Foi também Rui Palmeira quem popularizou o gesto das batidas sobre a mesa — o “toc, toc, toc” - ao afirmar que a Polícia Federal poderia, em breve, bater à porta das autoridades e do Instituto de Previdência de Maceió.

A crítica tem endereço político evidente: a gestão de JHC.


Mesmo assim, em Palmeira dos Índios, Fábio Targino pretende pedir votos para os dois.

Para deputado federal, estará com quem acusa e cobra representante.

Para governador, será com quem é o principal alvo dessas acusações e cobranças.

Como conciliar os dois discursos?


A contradição não é direito de escolher candidatos diferentes para cada carga. O eleitor não é obrigado a votar numa chapa verticalizada ou em nomes pertencentes ao mesmo grupo político.

O problema é a coerência pública de quem exerce mandato e pretende coordenar apoios eleitorais.

Ao pedir votos a Rui Palmeira, Fábio Targino terá de defender um candidato que apresenta a gestão de JHC como responsável política pelos graves questionamentos envolvidos no Iprev e no Banco Master.

Ao pedir votos para JHC, terá de defender um pré-candidato que rejeita essa vinculação, nega responsabilidade pessoal sobre os investimentos e recorre à Justiça contra jornalistas, comunicadores e adversários que associam o seu nome ao caso.

Qual dos dois discursos prevalecerá no palanque?


Quando Rui falou que o Iprev precisa explicar os R$ 117 milhões, Targino concordou com ele?

Quando JHC afirmou que a associação de seu nome ao Banco Master é injusta e motivada eleitoralmente, o vereador também concordará?

E quando os dois estiverem em confronto direto, de que lado fica o cabo eleitoral comum?

Na urna, os votos podem conviver. Na argumentação política, a conta é muito mais difícil de fechar.

Crise começou por cargas na Prefeitura


O apoio a Rui Palmeira foi o ponto de partida da atual guerra entre a Câmara e a Prefeitura de Palmeira dos Índios.

Segundo relatos de bastidores, o ex-prefeito Júlio Cezar não aceitou a escolha feita por Fábio Targino, porque o vereador passou a trabalhar por um concorrente direto na disputa por uma vaga de deputado federal.

A consequência foi o corte de pessoas ligadas ao parlamentar que trabalhavam na administração municipal.

O episódio expõe uma prática antiga da política municipal: vereadores indicam trabalhadores e ocupantes de funções no Executivo e, em troca, mantêm relações de apoio com a gestão.

Quando o acordo político se rompe, os indicados perdem os espaços
.

A ocorrência dos vereadores demonstra que essas contratações não foram tratadas apenas como decisões administrativas. Era considerado parte do patrimônio político de cada parlamentar.

Ao defenderem o retorno dos indicados de Targino, membros da Câmara consideraram, ainda que necessariamente, a existência de cotas políticas dentro da administração.

Contratados não têm estabilidade política


Segundo as informações apresentadas durante uma crise, grande parte das pessoas desligadas não ocupava carga comissionada e teria sido admitida mediante contratos temporários.

Esses trabalhadores não possuem estabilidade e, em regra, seus vínculos dependentes das condições e prazos previstos em contratos na maioria com Organizações sociais terceirizadas.

A administração pode encerrar contratações temporárias conforme a legislação e o interesse público. O que não pode é utilizar admissões e demissões como instrumento de prémio, punição ou troca de apoio eleitoral.

A contratação de temporário deve atender a uma necessidade excepcional e por prazo determinado. Não foi criado para funcionar como cota de vereadores ou depósito de cabos eleitorais.

Para saber se houve irregularidade, é necessário examinar cada contrato, a função exercida, a justificativa da contratação, o prazo e a existência de processo seletivo.

Se as pessoas foram contratadas apenas porque foram indicadas pelos parlamentares, sem necessidade temporária comprovada, o problema ultrapassa a briga eleitoral. Passa a exigência de apuração administrativa e jurídica do Ministério Público.

Da mesma forma, se foram dispensadas apenas porque o vereador decidiu apoiar outro candidato, a Prefeitura também deverá explicar os critérios utilizados.

Os vereadores transformaram o corte em causa coletiva.


Fábio Targino não decidiu sozinho a decisão da Prefeitura.

Os demais integrantes do bloco majoritário adotaram a retirada de seus indicados como uma ameaça a toda a Câmara.

A lógica manifestada no plenário foi direta: se a gestão mexer nos espaços de um vereador, enfrentará a ocorrência dos demais.

Foi nesse contexto que surgiram as declarações de que os parlamentares ficariam “no cangote” da prefeita e que Luísa Júlia Duarte deveria “começar a governar”.

A solidariedade ao colega poderia ter sido dirigida à defesa dos trabalhadores e à cobrança de critérios transparentes nas demissões.

Em vez disso, boa parte dos discursos concentrou-se na perda de poder dos vereadores sobre as cargas e contratos contratados na Prefeitura.

A crise revelou que o centro de disputa não era apenas ideológico nem administrativo. Foi também o controle de espaços na máquina pública durante a montagem dos palanques de 2026.

A vítima da retaliação do aliado de JHC


Fábio Targino afirma ter sido perseguida pela gestão municipal após fazer suas escolhas eleitorais.

Dias depois, mudou-se de JHC e apoio anunciou à sua pré-candidatura ao governo.

O movimento é politicamente compreensível: ao romper com o grupo de Júlio Cezar e Luísa Júlia, o vereador buscou outro campo estadual para se posicionar.

A surpresa é a manutenção simultânea da aliança com Rui Palmeira.


Em Maceió, Rui e JHC não representam apenas projetos diferentes. Travaram uma disputa marcada por diversas acusações, críticas à gestão municipal, cobranças sobre dinheiro previdenciário e referências à futura atuação da Polícia Federal.

Rui utiliza seu mandato para responsabilizar politicamente a gestão JHC pelo caso Master.

JHC tenta se afastar pessoalmente das decisões do Iprev e sustentar que a autarquia possuía autonomia técnica e financeira.

Fábio Targino decidiu ficar com os dois.

Uma aliança por carga, não por projeto


A composição mostra como parte das alianças eleitorais é construída em Palmeira dos Índios.

Não se exige coerência entre os candidatos apoiados. Cada carga recebe um acordo diferente.

Para deputado federal, vale a relação com Rui Palmeira.

Para governador, vale a aproximação com JHC.

Para a política municipal, vale o confronto com Júlio Cezar e a prefeita.

A ideologia, os discursos e as posições sobre os principais temas ficam em segundo plano.

O que importa é dividir a urna de acordo com as conveniências, os compromissos e os espaços disponíveis em cada grupo.

É a mesma lógica que permite que aliados locais briguem dentro do município e subam juntos no palácio estadual.

Em Palmeira, adversários na paróquia podem se transformar em companheiros na eleição.

Rui e JHC terão de conviver na mesma campanha


A escolha de Fábio Targino também cria uma situação curiosa para os próprios candidatos.

Rui Palmeira terá entre seus apoiadores um vereador que trabalha pela eleição de JHC ao governo.

JHC contará com um cabo eleitoral que pedirá votos para um dos homens que mais o criticam e que mais cobram investigações sobre sua antiga administração.

Não há notícias de que Rui tenha limitações nas críticas a JHC.

Também não há indicação de que JHC tenha mudado sua estratégia de combate judicial e politicamente as associações entre seu nome e o Banco Master.

Portanto, o conflito permanece.

O palácio de Fábio Targino terá de colocação acusador e acusado político, crítico e criticado, oposição e situação.

A salada está servida


Fábio Targino tornou-se pivô de uma crise municipal porque escolheu um candidato diferente daquele defendido pelo grupo que controla a Prefeitura.
Perdeu indicado, mobilizou a Câmara, provocou ameaças contra a gestão e levou os vereadores a uma agressão política em defesa dos espaços que mantinham na administração.

Depois, escolheu para governador justamente JHC, o maior adversário político do seu candidato a deputado federal.

O vereador pode votar em nós dois. O eleitor também.

Mas a população tem o direito de perguntar qual projeto político está sendo defendido.

O de Rui, que cobra respostas da gestão JHC sobre o Iprev e o Banco Master?

Ou o de JHC, que rejeita essas acusações e afirma não ter responsabilidade sobre as aplicações?

Quando uma política é construída apenas pela soma de interesses eleitorais, todas as contradições passam a caber no mesmo palanque.

Em Palmeira dos Índios, Fábio Targino encontrou uma fórmula peculiar: apoia o homem que denuncia e, ao mesmo tempo, o homem denunciado politicamente por ele.

Não é uma aliança ideológica. É uma salada eleitoral — com Rui para federal, JHC para governador e a coerência deixada do lado de fora do palanque.

Solidariedade apenas na filiação


A contradição de Fábio Targino não encerra a tentativa conciliar Rui Palmeira e JHC no mesmo palanque.

O vereador exerce seu mandato pelo Solidariedade, partido que possui uma pré-candidata a deputada federal natural de Palmeira dos Índios: a advogada Helô Bezerra.

Mesmo assim, Targino decidiu ignorar a candidatura da sua própria legenda e declarar apoio a Rui Palmeira, filiado ao PSD.

Helô Bezerra foi apresentado pelo Solidariedade como um dos nomes da legenda para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Natural de Palmeira dos Índios, ela vem realizando atividades políticas no município, aproximando-se de agricultores e tentando construir uma candidatura identificada com pautas locais.

Fábio Targino, porém, passa ao largo dessa candidatura.

O vereador usa o número, a estrutura e a representação política do Solidariedade para exercer o mandato conquistado em 2024, mas, quando chega a hora de escolher o candidato a deputado federal, prefere fortalecer um nome de outro partido.

Não se trata, tecnicamente, da fidelidade partidária que pode provocar perda de mandato, normalmente relacionada à saída injustificada da legenda.
Trata-se de política de fidelidade, compromisso partidário e coerência com o grupo que ofereceu a Targino a legenda para disputar a eleição municipal.

A pergunta é feita: qual é a utilidade de um partido apresentar uma candidatura de Palmeira dos Índios se o próprio vereador da legenda prefere pedir votos para um concorrente?

Partido serve para eleger, mas não para receber apoio

A escolha expõe uma relação de mão única.

O Solidariedade serviu para abrigar a candidatura de Fábio Targino, garantir sua presença na eleição municipal e permitir que ele conquistasse uma cadeira na Câmara.

Agora, o vereador não demonstra a mesma disposição para fortalecer o partido na disputa federal.

Enquanto Helô Bezerra tenta viabilizar uma candidatura própria da legenda e ligada ao município, Targino trabalha para Rui Palmeira, do PSD.

Na prática, o parlamentar ajuda a aumentar a votação de uma chapa adversária e reduz as possibilidades eleitorais do partido ao qual permanece filiado.

Nas eleições proporcionais, cada voto possui importância para o desempenho coletivo da legenda ou da federação. Ao apoiar um candidato de outro agrupamento, o vereador não fortalece apenas Rui Palmeira individualmente: contribuir politicamente para uma chapa que concorrerá contra a composição partidária do Solidariedade.

A opção pode atender aos acordos pessoais de Fábio Targino, mas não atender ao projeto eleitoral de seu partido.

Helô passa ao largo do vereador


A situação torna-se ainda mais contraditória porque Helô não é uma candidata distante, importada de outro município ou sem ligação com Palmeira dos Índios.

Ela é natural da cidade e busca justamente consolidar-se como uma alternativa palmeirense à Câmara Federal.

Fábio Targino poderia defender a candidatura do próprio partido e especificar o voto pela necessidade de ampliar a representação política do município em Brasília.

Preferido Rui Palmeira.


A decisão demonstra que o vínculo partidário de Targino parece terminar no momento em que iniciam seus acordos eleitorais pessoais.

O Solidariedade está presente na ficha de filiação e no registro do mandato. No palanque escolhido pelo vereador, entretanto, o partido desaparece.

Rui combate JHC; Targino apoia os dois


Como se não bastasse ignorar a candidatura da própria legenda, Fábio Targino montou uma dobradinha com dois nomes politicamente antagônicos.
Para deputado federal, apoia Rui Palmeira, um dos críticos mais duros de JHC e de sua administração em Maceió.

Para governador, apoia o próprio JHC.

Rui cobra explicou sobre os R$ 117 milhões do Iprev aplicados no Banco Master, questionou as decisões tomadas durante a gestão de JHC e popularizou o “toc, toc, toc” sobre a possibilidade de a Polícia Federal bater à porta de autoridades relacionadas ao caso.

JHC, por outro lado, nega responsabilidade pessoal sobre os investimentos, sustenta a autonomia do Iprev e procura evitar judicialmente a vinculação de seu nome ao Banco Master.

Fábio Targino pede votos para quem acusa politicamente e, ao mesmo tempo, para quem é alvo das acusações.

Além disso, deixa de apoiar Helô Bezerra, candidata do partido que lhe garantiu a legenda para chegar à Câmara Municipal.

Coerência ficou fora do palanque


O vereador pode legalmente votar em candidatos de partidos diferentes. Também pode construir apoios em conformidade com suas relações políticas.
Mas escolhas públicas realizadas questionamentos públicos.

Como Fábio Targino explicará aos eleitores do Solidariedade que não apoiam a candidatura federal da própria legenda?

Como pedirá votos para Rui Palmeira enquanto trabalha pela eleição de JHC, principal alvo político do vereador de Maceió?

Como defenderá as denúncias e cobranças de Rui sobre o Iprev e, no mesmo palanque, sustentará a candidatura de JHC ao Governo de Alagoas?
A composição não apresenta um projeto político comum. Apresenta apenas uma soma de interesses eleitorais.

Targino apoia Rui para deputado federal, JHC para governador e deixa Helô Bezerra, candidata do próprio Solidariedade e filha política de Palmeira dos Índios, fora de suas escolhas.

É uma salada na qual o partido serve para garantir o mandato, mas não para merecer lealdade na eleição seguinte.

No palanque de Fábio Targino, cabem o crítico e o criticado. Só não parece haver espaço para a candidatura da legenda a qual o próprio vereador pertence.
A Tribuna do Sertão mantém espaço aberto para manifestação de Fábio Targino, Helô Bezerra, Rui Palmeira, JHC e da direção estadual do Solidariedade.