Romance une blaxploitation e noir caipira com herói negro
Estreia literária do jornalista Luiz Fernando Treviso subverte o gênero policial com humor ácido e detetive de black power e Havaianas.
Os becos escuros do cinema policial clássico acabam de ganhar uma roupagem tipicamente tropical, ácida e marginalizada. O jornalista e escritor paulistano Luiz Fernando Treviso faz sua estreia nos romances com o livro Era uma vez em Parpoplanca. Publicada de forma independente através da plataforma Clube dos Autores, a obra caminha na contramão dos clichês do mercado tradicional ao fundir o suspense clássico com o movimento cinematográfico norte-americano blaxploitation e o regionalismo satírico do "noir caipira".
A trama investiga um bizarro assassinato ocorrido em Parpoplanca, uma pacata e fictícia cidade do interior que parece ter ficado congelada no tempo. Contudo, o grande trunfo do livro reside na construção de seu protagonista: o detetive Canduco. Afastando-se dos investigadores melancólicos e sisudos que moldaram o gênero policial literatura brasileira, Canduco é um homem negro dono de um black power imponente, que conduz seus interrogatórios calçando chinelos Havaianas, é usuário assumido de maconha e costuma ser acometido por crises incontroláveis de riso justamente nos momentos de maior perigo.
Um microcosmo satírico das mazelas nacionais
Longe de ser apenas uma comédia descompromissada, o pano de fundo de Parpoplanca funciona como um espelho distorcido e caricato da própria sociedade brasileira. A cidade é povoada por figuras empurradas para as margens sociais — como dependentes químicos, profissionais do sexo, imigrantes e a população negra local. É através do cotidiano desses personagens que o autor tece duras críticas ao moralismo das relações cotidianas, à violência policial e às engrenagens do racismo estrutural.
Para Treviso, a escolha pelo humor grotesco e pelo trágico atua como uma lente de aumento pedagógica para expor contradições sem suavizar a crueldade dos conflitos reais. "Acredito que a comédia e o terror são os gêneros que melhor dialogam com esse tipo de abordagem crítica, e por isso procuro mesclar os dois nas minhas narrativas, questionando as estruturas de poder a partir do estranhamento", pontua o escritor, que traz em sua bagagem intelectual a influência rodriguense e o cinema de horror visceral de diretores como David Cronenberg e George A. Romero.

Transmídia e os próximos lançamentos do autor
Cinéfilo e um dos criadores do podcast Cineblábláblá, o autor utiliza referências transmídia para costurar seus textos. Treviso, que recentemente foi selecionado para integrar a antologia nacional Horrores do Brasil: Anos 90 com o conto "Ostentação", já trabalha na expansão de seu universo literário independente com duas novas produções em fase de edição.
O primeiro projeto, Confissões de uma mente pervertida de um jovem cineasta, mergulha no submundo cultural da Boca do Lixo paulistana entre as décadas de 1970 e 1990 para investigar a trajetória esquecida de um diretor marginal durante os anos de ditadura militar. Já o segundo livro, O Ano da Desordem, constrói uma sátira política feroz ambientada no ano de 2019, onde o fanatismo religioso e os delírios autoritários de uma primeira-dama arrastam o palácio presidencial para uma violenta guerra civil contra motoboys e trabalhadores clandestinos organizados em redes de resistência.
Onde encontrar:
O romance Era uma vez em Parpoplanca, bem como as coletâneas de contos de suspense Paranoia e Horror sem fala, podem ser adquiridos em formato físico ou digital diretamente na página eletrônica do Clube dos Autores.